Introdução.
Às vezes a tentativa de satisfazer aos anseios mais profundos do homem toma uma direção inteiramente diferente, e a até mesmo oposta. O legalismo cede lugar ao anarquismo. Até parece que os homens estão dizendo: “Já que a obediência às leis – seja da Natureza, de Moisés, dos demagogos ou até das consciências não esclarecidas – não têm surtido nenhum resultado, vamos experimentar a desobediência às leis. Façamos suas correntes em pedaços e lancemos fora as cordas que nos emaranham. Fora toda e qualquer restrição!”. Entretanto, aqueles que têm semeado o vento (o qual chamam) da “liberdade pessoal” – na realidade não passa de licenciosidade descontrolada! –, com ênfase em coisas como sexo e sadismo, furtos e vandalismos (cf 5.19-21), estão colhendo a tempestade do empobrecimento intelectual, da decadência moral, da falência espiritual. É óbvio que a solução não se encontra nessa direção.
(Hendriksen, 2009, pp. 11-12)
O texto que agora vos escrevo tem como objetivos principais apresentar o contexto histórico em que a carta foi escrita, efetuar aplicações atualizadas dos princípios e ensinamentos ali apresentados, fazer um cruzamento de informações entre outros livros neo e veterotestamentários e lançar luz sobre alguns detalhes que geralmente passam despercebidos, mas que nunca estão postos aleatoriamente nas Sagradas Escrituras.
Este texto JAMAIS deve substituir uma sala de escola bíblica; antes, minha satisfação é entregar a todos reflexões sérias, intelectualmente honestas e salutares à compreensão de uma epístola tão importante na sedimentação da autoridade apostólica de Paulo e de seus ensinamentos a todos nós.
Destinatário
Há duas fortes vertentes divergentes quanto aos destinatários desta carta, mas, antes de explicitá-las, é necessário compreendermos a distribuição geográfica daquele momento.
Se a autoria de Paulo da Carta aos Gálatas é matéria liquida e certa, identificarmos os destinatários não é coisa fácil de fazer. Não há consenso entre os eruditos desse assunto. Como já afirmamos, Gálatas é uma única carta de Paulo escrita a um grupo de igrejas, em vez de uma única e determinada igreja. O problema é que o termo “gálatas” pode ter um significado geográfico e outro étnico. Teria Paulo escrito a carta aos povos celtas que habitaram no norte da Ásia Menor, ou às igrejas que ele e Barnabé estabeleceram na primeira viagem missionária ao sul da Galácia? Para dar essas respostas, duas teorias foram criadas: a teoria da Galácia do Norte e a teoria da Galácia do Sul. A primeira situa essa carta num período posterior à segunda viagem missionária; E a segunda, no final da primeira viagem missionária.
(Lopes, 2011, p. 15)
Os defensores da teoria nortista creem que esta carta fora escrita aos Celtas1, ou seja, possuíam uma visão étnica da Galácia2 visto que eles passaram a habitar o norte da Ásia Menor após subjugarem gregos, macedônios e trácios. Os defensores da teoria sulista compreendem que, após alojarem-se em território romano – que chegava até o Sul da Ásia Menor –, esse povo iniciou um processo de miscigenação. Como resultado, em pouco tempo passamos a ver descendentes dos gálatas por toda a Ásia Menor.
Corroboramos com a posição sulista devido aos seguintes pontos:
- Subsidia a ideia de que a carta aos Gálatas fora escrita ao fim da primeira viagem missionária de Paulo.
- “Se a teoria da Galácia do Norte for verdadeira, então essa missiva foi escrita por volta do ano 55 d.C., provavelmente de Éfeso, após a terceira viagem missionária. ” (Lopes, 2011, p. 16)
- Os judaizantes que tanto atacavam Paulo estavam concentrados na região sul, não ao norte.
- O próprio Pedro dirigiu-se aos Gálatas usando a percepção geográfica (1 Pe 1:1)
- Nomes de peso como Hendriksen e Lopes apoiam a teoria sulista.
- “Subscrevemos essa posição [sulista] por achá-la mais consistente com os fatos e circunstâncias.”
(Lopes, 2011, p. 16) - “Concluo, pois, enfatizando uma vez mais que se deve rejeitar a posição que estatui que Paulo escreveu sua carta à Galácia do Norte.”
(Hendriksen, 2009, p. 24)
- “Subscrevemos essa posição [sulista] por achá-la mais consistente com os fatos e circunstâncias.”
Toda a pregação paulina estava focada na graça de Cristo e na total eficácia de seu sacrifício à salvação de seus filhos. Ocorre que um grupo de judaizantes não aceitava essa ideia e passou a declarar que não bastava a aceitação de Cristo como seu redentor, sendo necessária também a obediência à Lei. Por isso estavam minando a autoridade apostólica paulina.
Propósito
A carta aos Gálatas foi escrita com dois principais propósitos em vista: o primeiro foi a defesa do apostolado de Paulo, e o segundo, a defesa do evangelho anunciado por Paulo. Essas duas vertentes estavam estreitamente interligadas. Era impossível atingir uma sem afetara outra
[…]
Os judaístas combatiam ardorosamente a liberdade que Paulo Anunciava por meio do evangelho. Os fariseus já haviam formado uma confraria que visava santificar pela obediência à lei todo o dia-a-dia dos seus membros, do berço ao ataúde. Para isso, não apenas contavam com cuidadosamente com os 613 mandamentos citados pelo Antigo Testamento (365 ordens e 248 proibições), mas ainda os rodeavam com um de determinações adicionais. Essas eram as “tradições dos anciãos”, mencionadas em Marcos 7.1-13.”
(Lopes, 2011, pp. 19,20)Os judaizantes, entretanto, não estavam dispostos a se render. Seguiram Paulo muito de perto a fim de destruir os resultados de seu trabalho. Em Antioquia, a culpa pelo comportamento repreensível de Pedro (Gl 2:11,12) é parcialmente deles. Eles atravessaram a Galácia insistindo com os gentios para que fossem circuncidados como meio de atingir a salvação (GL 5.2,3;6.12). não negavam ser necessário a fé em Cristo, porém proclamavam em alta voz que a circuncisão e a obediência a certos requisitos legais são também necessários (4.9,10). […] Com o fim de reforçar sua causa, lançavam suspeitas sobre Paulo. Tentaram desacreditá-lo, afirmando que seu apostolado não procedia de Deus, e sim dos homens, e que, por isso, seu evangelho era de segunda mão (Gl 1.1 cf. 1 Co 9.1ss) […].
(Hendriksen, 2009, p. 31)
Não confundamos a garra com a qual Paulo defendeu seu apostolado e pregação com uma mera birra ou orgulho ferido, mas percebamos as entrelinhas. Não sendo apóstolo constituído por Cristo, a pregação paulina torna-se inócua e desmerecedora de credibilidade; o sacrifício de Cristo e Sua graça redentora perdem a eficácia; não sendo suficiente à salvação, a obra de Cristo precisaria de um complemento e a Via Crucis perderia o motivo de ser.
Pergunto-me se essa visão sinergista seria o embrião do que tornar-se-ia o pelagianismo3, semipelagianismo4 ou o arianismo5, visto que ataca diretamente a divindade de Cristo.
Antes de passarmos à análise do texto em si, é interessante atentarmos para o seguinte ponto: o que levou aqueles judeus à empreitada feroz contra a teologia paulina? Até agora vimos um pouco do modus operandi do grupo, mas, e quanto ao porquê? E quais ensinamentos podemos tirar acerca disso?
É fácil olharmos para trás e acusarmos os judaizantes de sepulcros caiados, desprovidos de graça, legalistas, etc. Ocorre que nossa tendência ao anacronismo nos impede de perceber que muitos de nós, se judaicos, cometeriam os mesmos atos caso fizessem parte daquele contexto histórico. Tenderíamos a um severo protecionismo religioso e veríamos as boas novas pregadas como um ataque à moral e aos bons costumes que, durante séculos, os judeus levaram ao mundo. Cairns explicitou primorosamente as contribuições religiosas que tivemos dos judeus:
- Monoteismo6: […] Nunca, depois da sua volta do cativeiro babilônico, os judeus caíram em idolatria. A mensagem de Deus para eles através de Moisés ligava-os ao único Deus verdadeiro de toda a Terra. […]
- Esperança Messiânica: Os judeus ofereceram ao mundo a esperança de um Messias que estabeleceria a justiça na Terra. […] certamente, os homens instruídos que viveram em Jerusalém na época imediatamente anterior ao nascimento de Cristo tiveram contato com esta esperança. […]
- Sistema Ético: […] o judaísmo ofereceu ao mundo o mais puro sistema ético de então. O elevado padrão proposto nos Dez mandamentos se chocava com os sistemas éticos prevalescentes e com as práticas por demais corruptas dos sistemas morais pelos quais se pautavam. Para os judeus, o pecado não era o fracasso externo, mecânico e contratual dos gregos e romanos, mas era uma violação da vontade de Deus, violação esta que se expressava num coração impuro e, mais ainda, em atos pecaminosos externos e visíveis […]
- O Antigo Testamento: Mesmo um estudo superficial do Novo testamento revela uma profunda dívida de Cristo e dos apóstolos para com o Velho testamento e sua reverência por ele como a palavra de Deus para o homem. […] Muitos destes prosélitos foram capazes de passar do judaísmo ao cristianismo por causa do Velho testamento, o livro sagrado da nova igreja.
- FIlosofia e História: Os judeus tornaram possível uma filosofia da história por insistirem que a história tem significado. Eles se opuseram a toda e qualquer visão que deixasse a história sem significado, como uma série de círculos ou como um processo de evolução linear. Eles sustentavam uma visão linear e cataclísmica da história, na qual o Deus soberano, que criou a história, iria triunfar sobre a falha do homem na história para trazer uma era dourada.
(Cairns, 2004, pp. 34-36)
Após refletir sobre os pontos supracitados, não nos parece sensato defendê-los a qualquer custo? Era justamente este o pensamento que aqueles judaizantes possuíam, afinal, é bastante lógica a ideia de que a Lei dada pelo próprio Deus não deveria ser rejeitada. Ocorre que esta Lei apontava diretamente e foi completamente cumprida em Cristo, que jamais a denegriu, mas fez-nos compreender a sua verdadeira essência. Todo o resumo das leis – presentes nas tábuas entregues a Moisés – pode ser percebido de forma vertical (ligando o homem a Deus) e horizontal (ligando a humanidade entre si); logo, dizer que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e aos nossos próximos como a nós mesmos (MC 12:29-31) não deturpa a Lei mosaica, pois É A PRÓPRIA LEI.
Assim sendo, também temos que cuidar para que pensamentos, atitudes, ideologias ou convenções passadas não impeçam nossa maturação espiritual. Devemos continuar galgando o caminho da santificação por meio da renovação da mente que apenas o Espírito Santo de Deus pode nos conceder e, assim, não retornar àquilo que nos separa do Pai.
Claro, havia também o grupo de judaizantes que se preocupava apenas com a manutenção do seu “status quo”. Viam na graciosa pregação cristocêntrica paulina a depreciação de sua autoridade eclesiástica e político-social. Este tipo de absurdo está mais vivo que nunca em nossos dias. Basta analisarmos a quantidade de igrejas em que os ritos e simbolismos judaicos são remontados7. Tudo isso sob a capa da pseudo-santificação, pois, além de ser uma parca releitura do ascetismo8, em nada representa a busca pelo redentor, mas da necessidade de alcançar por meios próprios a graça e benevolência do Pai. O próprio judaísmo existente no período de Jesus não era homogêneo e aquilo que começou como uma lícita defesa da fé no Deus do Velho Testamento, findou na laceração religiosa em várias seitas9 presentes no tempo de Cristo e – consequentemente – no de Paulo. Assim sendo, qual tipo de judaísmo essas igrejas seguem, se é que já não sincretizaram tanto as coisas que findaram por criar o seu próprio, conforme “sua imagem e semelhança”?
Análise Textual
Capítulo 1
Versículos 1 à 5
Quase todas as cartas da Bíblia iniciam com uma curta apresentação e saudação para, logo após, expor o conteúdo em si. Percebamos que apenas duas epístolas se estendem mais na fase da saudação: Romanos (que analisaremos em outro momento) e Gálatas. Não pensemos que isso foi aleatório, pois esse introito contém e suporta toda a defesa do apostolado paulino descrito nas linhas anteriores.
Falando de forma direta, a Bíblia reconhece apenas treze apóstolos e, para compreendermos isso faz-se necessário debatermos um pouco sobre essa patente. Este termo é tão exclusivo a ponto de não ser utilizado em situações genéricas ou chamamentos quaisquer. Apenas aqueles que Jesus diretamente comissionou, discipulou ou apresentou-se transfigurado é que podem ser chamados de apóstolos. Não devemos confundir isso com os chamados ministeriais e o governo da igreja. O corpo de Cristo possui liberdade, autonomia e responsabilidade na eleição de seus bispos, presbíteros, diáconos, mestres, conselheiros e demais funções necessárias. Mas o apostolado foi um comissionamento exclusivo de Cristo.
Era indispensável que os apóstolos não fossem escolhidos da mesma maneira que os outros pastores, mas pela ação direta do próprio Senhor. Foi assim que Cristo chamou os doze (Mt 10.1). E, quando um sucessor foi designado para preencher a vaga deixada por Judas, a igreja não se aventurou a escolher um sucessor por meio de votos, mas recorreu ao método de lançar sortes (At 1.26). estamos certos de que esse método não foi utilizado na escolha dos pastores. Por que o método de lançar sortes foi usado na designação de Matias? Para deixar evidente a ação de Deus, pois o apostolado tinha de ser distinguido dos demais ministérios. Assim, para mostrar que não pertencia à ordem comum de ministros (a vulgari ordine ministrorum), Paulo argumenta que sua chamada procedia diretamente de Deus.
(Calvino, 2013)
Dessa forma, não encontramos base bíblica para a sucessão apostólica, embora tenhamos total tranquilidade em aceitar o apostolado paulino.
Protestantes atuais que defendem a sucessão apostólica o fazem sob o argumento de que temos autoridade similar aos treze, ao arrepio do princípio da Inerrância bíblica. Isso é tão grave que – se fosse verdade – todos os “neoapóstolos” teriam autonomia e autoridade para reinterpretar ou ressignificar a sagrada escritura10 enquanto os católicos romanos adeptos desse pensamento primam pela supremacia da instituição11 utilizando-se de um silogismo simplista e que reforça a autoridade da instituição em detrimento da escriturística.
Os católicos romanos que, considerando que os autores da Bíblia eram clérigos, foi a igreja que escreveu a Bíblia. Portanto, a igreja está acima da Bíblia e tem autoridade, não somente para interpretá-la como também para fazer-lhe acréscimo.
(Stott, 2014, pp. 17-18)
Ambas as linhas de pensamento ferem completamente o princípio da inerrância bíblica e a sua soberania12, transferindo-os aos atuais – ditos – ministros do evangelho. Seja de forma direta (no caso do protestantismo) ou indireta (catolicismo romano).
Para finalizarmos a argumentação sobre a autoridade apostólica de Paulo e a heresia da sucessão apostólica, seguem mais dois textos.
Os apóstolos não tiveram sucessores. A igreja é apostólica hoje na medida que segue a doutrina dos apóstolos. Laboram em erro aqueles que atribuem a si mesmos esse ofício ou aceitam da igreja essa posição. Paulo não se autodenominou apóstolo pela igreja. Ele recebeu seu apostolado do próprio Senhor Jesus e tem plena consciência de que sua Autoridade não emana dele mesmo, mas daquele que o constituiu como tal. O apostolado certamente não era uma instituição democrática. Sua autoridade independia de nomeação humana. (Lopes, 2011, p. 33)
[…] Eles foram pessoalmente escolhidos chamados e comissionados por Jesus Cristo e autorizados a ensinar em nome dele. O Novo Testamento Evidencia claramente que esse grupo ela pequeno e único. A palavra ‘Apóstolo’ não era uma palavra comum, que pudesse ser aplicada em qualquer cristão como as palavras “crente”, “santo” ou “irmão”. Era um termo especial reservado aos doze e a um ou dois outros que o Cristo ressuscitado designara pessoalmente. Portanto, não pode haver sucessão apostólica, a não ser a lealdade à doutrina apostólica do Nono Testamento. Os apóstolos não tiveram sucessores. Pela natureza do caso, ninguém poderia sucedê-los. Eles foram únicos
[…]
Os apóstolos de Jesus Cristo foram únicos: únicos na experiência do Jesus histórico, únicos na visão do Senhor ressuscitado, únicos em sua comissão através da autoridade de Cristo. não podemos exaltar nossas opiniões acima das opiniões deles nem reivindicar que nossa autoridade é tão grande quanto a deles, pois as opiniões e a autoridade deles foram as opiniões e autoridade de Cristo.
(Stott, 2014, pp. 15,17)
Os versículos 3 a 5 introduzem a autoridade de Cristo e a suficiência de seu sacrifício.
O versículo 4, especificamente, é uma resposta direta aos judaizantes, pois introduz o conceito de Sacrifício Substitutivo de Cristo. A lei e o sistema sacrificial do Velho Testamento possuíam vários significados, como o simbólico (toda a liturgia e elementos traziam consigo a percepção concreta e vinculada a todo o contexto histórico judaico), representativo (apontando para o sacrifício supremo que um dia ocorreria), social, jurídico, econômico, etc. Mas apenas a cruz de Cristo trouxe consigo o sacrifício substituto (além dos demais), ou seja, único e eficaz.
A morte de Cristo não foi apenas um sacrifício feral, mas substitutivo. Ele não comprou apenas uma ‘segunda chance’, dando-nos nova oportunidade de endireitar a vida e agir certo com Deus. Ele fez tudo que precisávamos fazer, mas não conseguimos. Se a morte de Jesus de fato pagou por nossos pecados em nosso lugar, nunca podemos retroceder para condenação, porquê? Porque, nesse caso, Deus receber dois pagamentos pelo mesmo pecado, o que e injusto! Jesus fez tudo que deveríamos ter feito, em nosso lugar, de modo que, quando ele se torna nosso Salvador, somos absolutamente libertos da penalidade e da condenação.
(Keller, 2015, pp. 19,17)As palavras “o qual se entregou a si mesmo pelos nossos pecados” tinham o propósito de transmitir aos crentes da Galácia uma doutrina sobremodo importante: o sacrifício de Si mesmo, que Cristo ofereceu ao Pai, não por ser comparado por nenhum outro tipo de satisfação dos pecados; por isso, em Cristo, e somente nEle, devem ser buscadas a expiação de seus pecados e a justiça perfeita; e a maneira pela qual somos redimidos nEle deve estimular nossa mais elevada admiração […] Cristo, por outro lado, ofereceu-se a Si mesmo em sacrifício, para reconciliar-nos com Deus. Logo, concluímos que a morte de Cristo é a satisfação pelos pecados.
(Calvino, 2013)
A parte final do versículo 4 é mal interpretada quando utilizada como base para isenção de tribulações quotidianas. Pensamentos teológicos como a prosperidade ou libertação distorcem as escrituras e conferem ao ser humano benesses utópicas. Somos levados a medir o “grau de Graça” concebida por métricas ignóbeis como milagres financeiros, restauração de saúde, conquista de relacionamentos, transformação socioeconômica de uma população etc. Como se a promessa de sermos levados a um novo reino nos retirasse física ou psicologicamente deste mundo para um outro. Assim sendo, poderíamos ser sal da terra e luz do mundo, se aqui não estivéssemos ou fizéssemos parte? Esta passagem possui uma realidade que vai além daquilo que uma vã sinestesia pode perceber, em que Stott e Lopes nos falam sobre duas dispensações diferentes.
[…] A Bíblia divide a história em duas dispensações: “esta dispensação” e “a dispensação futura”. Além disso, ela nos diz que “a dispensação futura” já chegou, porque Cristo a inaugurou, embora a atual dispensação ainda não tenha chegado ao fim. As duas dispensações, portanto, ocorrem paralelamente. Elas de sobrepõem. A conversão cristã significa libertação da antiga dispensação e transferência para a nova dispensação, “a dispensação futura”. E a vida cristã consiste em viver nesta dispensação a vida da dispensação futura.
O propósito da morte de Cristo não foi, portanto, não foi apenas nos dar o perdão, mas, depois do perdão, proporcionar-nos uma nova vida, a vida da dispensação futura.
(Stott, 2014, pp. 19,20)[…] Quando alguém se converte, é transportado da dispensação presente para a dispensação futura, ou seja, domínio de Satanás para o reino da Graça. Para os que creem, a “presente era perversa” não é mais a verdadeira realidade. Apesar de ainda viverem cronologicamente nela, e de serem também atribulados por ela, eles foram legalmente expatriados desta era e transportados “… para o reino do Filho de seu amor” (Cl 1.13).
(Lopes, 2011, p. 43)
Hendriksen e Calvino também fazem uma leitura bastante interessante sobre esse tema:
Paulo afirma que cristo se deu para nos resgatar deste presente mundo dominado pelo mal. Para mundo Paulo usa o termo aeon. Este termo denota o mundo em movimento, em contraste com Cosmo que, apesar de usado em vários sentidos, indica o mundo em repouso. O aeon pois se refere ao mundo visto de um ponto de vista temporal e de mudanças. […] É o mundo que está caminhando para seu fim, e no qual, a despeito de todos os seus prazeres e riquezas, não há nada de valor permanente. Em contraste com este presente mundo ou era está o mundo vindouro, a era de glória que será introduzida na consumação de todas as coisas.
(Hendriksen, 2009, p. 48)Ao acrescentar o adjetivo perverso, o apóstolo tencionava mostrar que falava da corrupção ou depravação que procede do pecado, e não das criaturas de Deus ou da vida física. No entanto, pelo uso desta mesma palavra, Paulo destrói todo o orgulho humano. Ele declara que, sem a renovação da natureza humana que é realizada pela Graça de Cristo, em nós há somente perversidade. Pertencemos ao mundo; e enquanto Cristo não nos redime do mundo, este nos domina e vivemos para ele. Entretanto, embora os homens se deleitem em sua suposta excelência, eles são indignos e depravados, não segundo a sua própria opinião, mas conforme o julgamento do Senhor, declarado nesta passagem pelas palavras do apóstolo.
(Calvino, 2013)
Versículos 6 à 10
Em todas as outras epístolas, depois de saudar os seus leitores, Paulo continua orando por eles ou louvando e agradecendo a Deus. A epístola aos Gálatas é a única e que não há oração, nem louvor, nem ação de graças, nem elogios. Em vez disso o apóstolo Paulo vai direto ao assunto, com uma nota de extrema urgência. Paulo expressa admiração diante da inconstância e instabilidade dos gálatas, e prossegue queixando-se dos falsos mestres que estavam perturbando a igreja da Galácia. Daí, então, ele anuncia um anátema solene e terrível contra aqueles que se atrevem a alterar o evangelho.
(Stott, 2014, p. 22)
Enquanto os versículos anteriores focam na defesa do apostolado paulino e no perfeito sacrifício substitutivo de Cristo, estes exibem a plena autoridade do evangelho. Antes de iniciarmos nossa explanação, é essencial darmos um “en passant” em Atos 15 e no Concílio de Jerusalém.
Logo no versículo 5 vemos os dedos dos fariseus tecendo suas teias malévolas. Percebamos que os judaizantes não eram fariseus; estes apenas uniram-se mediante um ideal em comum: a supremacia – ou ao menos a equidade – da lei mosaica em detrimento da graça evangélica de Cristo. Resumindo, “O inimigo do meu inimigo é meu amigo”, este foi o motivo dessa coligação partidária. Em At 15:25-27 o Concílio reconhece a autoridade paulina e descarta o jugo legalista farisaico-judaizante que tenta se impor àquela comunidade, reconhecendo apenas quatro exigências13: abstenção de comida sacrificada aos ídolos, de sangue, de carne de animais estrangulados e da imoralidade sexual (versículos 28 e 29).
Partindo agora para o texto em si, devemos atentar para algumas palavras-chave bastante fortes nos versículos 6 e 7. Primeiramente temos o verbo grego na voz ativa, ou seja, informando uma ação atual, que está em execução. Uma boa analogia é comparar essa “voz ativa” com o nosso gerúndio14. Deus levantou aqueles pastores para atuarem na igreja de Gálatas no exato momento em que as ovelhas estavam fugindo do aprisco, o que demonstra o presente e eficiente cuidado do Pai para com seus filhos.
Outro ponto importante é a palavra grega metatithemi que perdeu consideravelmente seu significado – e impacto – devido as traduções em nosso vernáculo. A NVI a traduz como abandono15, passando apenas parte de seu conceito, visto que, embora seja uma ação, traz consigo uma ideia de passividade; deixar de fazer algo; desistir de alguém ou de uma ideia; não mais seguir adiante.
A tradução Almeida Revisada e atualizada entrega-nos este versículo da seguinte forma: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho” (Almeida J. F., 2008); utilizando o verbo na segunda pessoa do plural do pretérito perfeito do subjuntivo (que vós passásseis). Ocorre que o subjuntivo expressa probabilidades, sentimentos, desejos etc., uma ideia diametralmente oposta ao que fora expresso pelo autor da missiva. A recaída ao judaísmo não era uma mera possibilidade, um simples sentimento ou algo menor que passou (ou estava passando), mas um fato em execução. Isso justificaria uma tradução no presente do indicativo, o que exibiria um fato atual (presente) e certo (indicativo).16
Dentre as traduções aqui apresentadas, a Bíblia King James é a que mais se aproxima da ideia original.
| BÍBLIA KING JAMES | TRADUÇÃO |
| I Marvel that ye are so soon removed from him that called you into the grace of Christ unto another gospel. (Bíblia on Line, 2017) | Fico abismado que vós tão logo sois removidos d’Ele, que vos chamou na graça de Cristo, para outro evangelho. |
Aqui o tradutor deixa claro que os judaizantes e seus asseclas são removidos, extirpados, obliterados daquele que, mesmo nos chamando de graça, em graça e para a Graça, teve Seu sacrifício rejeitado. Dessa forma, precipuamente indignos da presença do Pai, e agora também do amor e da obra do Filho, eles são rechaçados do corpo de Cristo.
Ainda assim a King James apenas arranhou a dureza exposta em metatithemi. Vejamos o que falam Lopes, Stott e Calvino:
[…] O uso do tempo presente indica claramente que os gálatas estavam em pleno processo de abandono. Estavam desviando-se de Deus e do seu evangelho. A palavra grega metatithemi significa “transferir a fidelidade”. É usada em referência a soldados do exército que se rebelam ou desertam, e as pessoas que mudam de partido na política, na filosofia ou na religião. Os gálatas eram vira-casacas religiosos e desertores espirituais. Estavam abandonando o evangelho da graça para alcançar o evangelho das obras. […] O cristianismo não é apenas a adoção de um credo, mas também a sustentação de um relacionamento. A apostasia não é apenas o abandono da doutrina ortodoxa, mas também a deserção do próprio Deus. Os crentes da Galácia estavam abandonando não apenas o evangelho pregado por Paulo, mas também o Deus anunciado pelo apóstolo. Quando uma pessoa se afasta do evangelho, ela não está apenas deixando para trás a doutrina ou a igreja, mas está distanciando-se do próprio Deus.
(Lopes, 2011, pp. 49,50)[…] A palavra grega (metathemi) é interessante. Significa “transferir a fidelidade. […] Um certo Dionísio de Heracléia, por exemplo, que abandonou os estóicos, tornando-se membro de uma escola filosófica rival, isto é, epicurista, era chamado de ho metathememos, um “vira-casaca”.
[…]
Paulo vai ainda mais além. Ele diz que a deserção dos gálatas convertidos estava relacionada com a experiência e também com a teologia. Ele não os acusa de desertarem do evangelho da Graça com vistas a um outro evangelho, mas de desertarem daquele que os chamara na graça. Em ouras palavras, teologia e experiência, fé cristã e vida cristã , andam juntas e não podem ser separadas. Afastar-se do evangelho é afastar-se do Deus da graça. Os Gálatas que se cuidassem pois estavam se afastando muito depressa e precipitadamente. É impossível abandonar o evangelho sem abandonar a Deus.
(Stott, 2014, pp. 22-24)[…] Paulo acusa os gálatas de apostasia, não somente em relação ao ensino do apóstolo, como veremos, mas em relação ao próprio Cristo. Pois lhes seria impossível preservar seu compromisso com Cristo sem o reconhecimento que Ele os havia resgatado, graciosamente, da escravidão da lei. Mas essa crença não pode ser harmonizada com as ideias concernentes à obrigação de guardar as cerimônias, ideias que os falsos profetas haviam incutido neles. Por isso, os crentes gálatas estavam afastados de Cristo, não porque rejeitassem totalmente o cristianismo, e sim porque a corrupção das doutrinas do cristianismo ocorreram em tal proporção, que só lhes restava um Cristo imaginário.
(Calvino, 2013)
Deserção é o crime de abandono do dever. Em nosso país, tal falta resulta apenas em sanções que variam de detenção a reclusão17, correto? ERRADO! Em tempo de guerra, a pena de morte por fuzilamento é permitida em dezoito situações, dentre elas temos deserção, traição e motim, revolta ou conspiração. Caso a pena seja imposta em zona de guerra, a lei ainda permite a execução imediata, desde que seja para a manutenção da disciplina militar18. Indo para além do Brasil que tão pouco conhecemos, devemos lembrar que a Roma paulina foi uma sociedade extremamente militarizada, o que intensifica a pena dos desertores. Estes poderiam ser apedrejados ou surrados até a morte em frente da tropa e, caso fugissem, seriam exilados de Roma. Talvez tenhamos pensado que “para o condenado à morte o exílio é redução de pena, uma melhoria”, mas para os romanos era tornar-se um animal. O exilado era proibido de utilizar água e fogo para preparar os alimentos, do convívio com outros humanos e de entrar em qualquer casa que não fosse construída por suas próprias mãos. Sabendo o nível de miséria imposta ao desertor em fuga, o estado sequer preocupava-se em gastar recursos e efetivo com buscas19. Agora temos noção do impacto causado por Paulo ao chamar de desertores todos os que estavam retornando as práticas Judaizantes.
Enfim, pelo que os Gálatas estavam desertando? Em busca do que estavam indo? O versículo 7 introduz essa resposta afirmando que os judaizantes estavam pervertendo o evangelho e virando a igreja de ponta cabeça20. Percebam que somos introduzidos a dois ataques diferentes, embora complementares. Primeiramente, a distorção em si do evangelho, que estamos analisando paulatinamente neste documento. Em segundo lugar, a cisão da comunidade em duas grandes facções que se digladiavam.
Os gálatas, dessa forma, estavam sendo lançados em confusão por homens que nutriam o desejo e tentavam virar de ponta-cabeça o evangelho que tem Cristo por centro e que o glorifica, o evangelho cristocêntrico. Certamente que o ensino segundo o qual a salvação dos homens é por meio da fé mais as obras da lei não passa de uma perversão do verdadeiro evangelho que proclama as “boas-novas” da salvação (pela graça) tão-somente pela fé.
(Hendriksen, 2009, p. 55)
Como resolver isso? Os versículos 8 e 9 gritam aos nossos ouvidos: “Retornem à essência do evangelho”, “Não coloquem nada, nem ninguém, em pé de igualdade com Cristo e seu sacrifício”, “Qualquer um que tente alterar a mensagem de Cristo, que seja maldito ou anatemizado”. Mas o que significa ser “maldito” ou “anatemizado”? Stott e Hendriksen foram primorosos em suas explanações.
A palavra grega duas vezes traduzida por “anátema” é anathema no original. No Antigo Testamento grego ela era usada para indicar banimento divino, a maldição de Deus sobre qualquer coisa ou pessoa que ele destinasse a destruição.
[…]
A primeira consideração [sobre anátema] é que a maldição do apóstolo, ou a maldição de Deus que ele invoca, é de âmbito universal. Ele repousa sobre todo e qualquer mestre que distorça a essência do evangelho e que propague tal distorção.
[…]
A segunda consideração [ainda sobre anátema] é que sua maldição é deliberadamente anunciada e com uma responsabilidade consciente para com Deus.
[…]
e imparcialmente (quem quer que fossem os mestres)
[…]
(Stott, 2014, pp. 25,26)O “maldito” (anátema) de Paulo não é mero desejo, e sim uma invocação efetiva. O apóstolo, como representante plenamente autorizada por Cristo, está pronunciando maldição sobre os judaizantes que estavam cometendo o terrível crime de chamar o verdadeiro evangelho de falso, e substituir o evangelho verdadeiro e salvífico por um destrutivo e perigoso.
(Hendriksen, 2009, p. 56)
Novamente somos apresentados à supremacia do evangelho em detrimento de qualquer pensamento, corrente filosófica, ideologia, religiosidade, sociedade, tempo, etc. Paulo coloca tudo e todos abaixo do evangelho – inclusive a si próprio. Lopes exibe-nos quatro pontos que demonstram essa soberania: O evangelho é maior que os apóstolos, O Evangelho é maior que os anjos; O Evangelho é maior que os falsos profetas e O Evangelho pregado e recebido traz benção, mas o evangelho adulterado gera maldição. Vamos efetuar uma explanação desses pontos.
- O evangelho é maior que os apóstolos: Embora a autoridade apostólica tenha sido dada diretamente por Cristo aos treze, nem mesmo estes possuem autonomia nem autoridade alguma para alterar o evangelho – nem mesmo o próprio Paulo. Esta mensagem é maior que qualquer mensageiro, assim sempre o foi, hoje o é e, dessa forma, permanecerá até o retorno de Cristo.
- O evangelho é maior que os anjos: Não importa a patente e origem da mensagem, se humana ou celeste, nenhuma mensagem será igual ou superior ao evangelho.
- Com toda a certeza, é impossível os anjos do céu ensinarem qualquer coisa além da pura verdade de Deus. Mas, quando havia controvérsia a respeito da fé na doutrina que Deus revelara sobre a salvação dos homens, Paulo não achava suficiente refutar a opinião dos homens, sem refutar, ao mesmo tempo, a autoridade dos anjos. Assim, não é supérfluo que o apóstolo pronuncie uma maldição sobre os anjos, caso ensinassem outra doutrina, embora seu argumento tenha por base uma impossibilidade. Essa linguagem exagerada deve ter contribuído para fortalecer a confiança na pregação de Paulo. Seus oponentes, mediante o uso de nomes famosos, tentavam atacar seu ensino e caráter. Ele os responde afirmando com ousadia que nem mesmo os anjos são capazes de abalar sua autoridade
(Calvino, 2013) - Na primavera de 1820 um adolescente insatisfeito com as igrejas existentes no EUA decide recolher-se em oração e solicitar a Deus orientação sobre qual instituição realmente O representaria. Como resposta, dois seres celestiais se apresentaram a ele dizendo que não deveria unir-se a nenhuma, pois a igreja de Cristo não estava na Terra. Em um segundo momento outro ser celestial que havia vivido na América cerca de 400 D.C., chamado Morôni, apresentou-se e informou-lhe que deveria traduzir um livro produzido em placas de ouro – objeto que o jovem receberia quatro anos depois. Em 6 de Abril de 1830 este jovem – chamado Joseph Smith Jr. -, seu escrivão Oliver Cowdery (o qual também havia recebido visita celestial de João Batista, Pedro, Tiago e João conferindo-lhe autoridade para batizar, além do sacerdócio de Melquisedeque) e mais quatro pessoas organizaram formalmente a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos Dias, ou seja, a Igreja Mormon.
- Neste texto não temos a pretensão de criar um embate entre mormonismo e cristianismo, ou mesmo desrespeitar aqueles que professam uma fé divergente a nossa, em absoluto. Entretanto, este breafing do início o mormonismo mostra a importância e força do versículo que estamos analisando.
- Com toda a certeza, é impossível os anjos do céu ensinarem qualquer coisa além da pura verdade de Deus. Mas, quando havia controvérsia a respeito da fé na doutrina que Deus revelara sobre a salvação dos homens, Paulo não achava suficiente refutar a opinião dos homens, sem refutar, ao mesmo tempo, a autoridade dos anjos. Assim, não é supérfluo que o apóstolo pronuncie uma maldição sobre os anjos, caso ensinassem outra doutrina, embora seu argumento tenha por base uma impossibilidade. Essa linguagem exagerada deve ter contribuído para fortalecer a confiança na pregação de Paulo. Seus oponentes, mediante o uso de nomes famosos, tentavam atacar seu ensino e caráter. Ele os responde afirmando com ousadia que nem mesmo os anjos são capazes de abalar sua autoridade
- O evangelho é maior do que qualquer mestre21:
- Àqueles que dedicaram sua vida a expansão, ensino e defesa do evangelho, devemos reconhecer os valorosos préstimos e conceder a honra merecida e necessária. Lembremos, porém, que não importa quem seja, seu histórico, ou mesmo sua vontade, não devemos aceitar ensinamentos que colidam com os princípios bíblicos. Tomemos como exemplo Martinho Lutero, personagem com lugar de honra na história da Reforma Protestante, cujo ensinamentos devem ser estudados e considerados uma bênção até hoje. Infelizmente ele tentou converter os judeus ao cristianismo e, não conseguindo, passou a persegui-los incitando, inclusive, a destruição de casas, bens e livros religiosos e criando literaturas que os atacavam diretamente. Não nos surpreende que Hitler tenha usado esses escritos para embasar e defender o antissemitismo e, consequentemente, o Holocausto.22 Não adianta ficarmos abismados com a tentativa dos nazistas desumanizarem os judeus, chamando-os inclusive de Ratos23, e esquecermos o equânime absurdo executado por Lutero ao taxá-los de porcos.
- O evangelho pregado e recebido traz bênçãos, mas o evangelho adulterado gera maldição:
- O verdadeiro evangelho é o único capaz de promover a salvação e, secundariamente, a transformação positiva do ser humano e de uma sociedade quando há a real aplicação de seus princípios basilares.
Quando distorcido, além de não levar o pecador a Cristo, passa a ser usado como instrumento de manobra de massas como nos casos dos impérios religiosos que vemos todos os dias na TV; quando os títeres do mundo gospel manipulam os aspectos políticos e sociais de suas ovelhas de forma a eleger seus candidatos inócuos, ou incitando ódio contra aqueles que não compartilham de nossa fé.
- O verdadeiro evangelho é o único capaz de promover a salvação e, secundariamente, a transformação positiva do ser humano e de uma sociedade quando há a real aplicação de seus princípios basilares.
No versículo 10, Paulo retorna com grande força à defesa da veracidade de sua pregação, afirmando que não tenciona expor doces mentiras ou arremedar o evangelho para aumentar a quantidade de asseclas. Absolutamente. Ele reforça a ideia de que não está pregando para agradar aos homens, mas exclusivamente ao Deus soberano, e que assim continuará, não importam os obstáculos impostos. Obedecer a Deus requer coragem para tomar atitudes que nem sempre serão bem quistas pela sociedade em que vivemos, não gerará “likes” ou compartilhamentos nas redes sociais de que participamos, custará aquela promoção no emprego, excluir-nos-á de certos círculos de amizades dos quais desejamos fazer parte etc. Em nossa caminhada na fé em Cristo sempre passaremos por bifurcações cujos caminhos nem sempre são fáceis, mas devemos ter a mesma coragem de Paulo e continuar vivendo conforme os ensinamentos de Cristo, sem nos preocupar se estamos ou não agradando à sociedade ao redor. Concordo com Timothy Keller quando ele afirma:
Mas, afinal, como o evangelho destrói a necessidade de agradar o homem – ‘o temor do homem”? Libertando-nos e motivando-nos para buscarmos ‘o favor de Deus’. No evangelho, descobrimos que confiar em Cristo produz o favor e a provação totais e plenos de Deus.”
(Keller, 2015, p. 36)
Aqui é necessário entendermos o seguinte: defender inflexivelmente o evangelho não é o mesmo que virarmos “guerrilheiros gospéis” semeando discórdias e arrumando confusões. Muito menos agirmos de forma covarde por trás do anonimato das redes sociais para atacar tudo e todos, como facínoras. Sejamos sábios e aprendamos a ajuntar, não a espalhar. Nossa obrigação é viver e pregar o evangelho, não separar o joio do trigo, apenas pregar sem cessar as verdades basilares das sagradas escrituras.
Versículos 11 à 24
Aqui, como em Atos, Paulo não está compartilhando seu testemunho para a inspiração dos outros ou para se recomendar a nós. Ele o faz para refutar as afirmações de pessoas que querem enfraquecer sua mensagem, e só quer que seu testemunho aponte para o Deus da surpreendente graça.
(Keller, 2015, p. 26)
Não confundamos essa passagem com um simples testemunho (embora também – mas não apenas – possa ser visto como um). A defesa de seu ministério apostólico e da mensagem por ele pregada, iniciada versículos antes, é aqui detalhada de uma forma maravilhosa.
Julgamos ser essencial respondermos à seguinte pergunta: quem foi Paulo antes do evento em Damasco? Para fins pedagógicos, achamos apropriado alterar a ordem da análise dos versículos. Leiamos os versos 13 e 14.
Paulo não nascera em meio aculturado ou em uma cidade interiorana, ao contrário, Tarso era uma cosmopolita e um centro acadêmico grego, portanto, exalava conhecimento. A população local também era bastante politizada, talvez como resultado do proconsulado de Marco Túlio Cícero24 que havia sido aclamado um dos mais justos líderes que Roma havia visto e governou a Cicília entre 50 a.C.. e 43 a.C., quando foi assassinado. Paulo também era Bipátrida, ou seja, possuía duas nacionalidades. O nascimento romano trazia consigo direitos exclusivos25, enquanto, como filho da diáspora e circuncidado na tribo de Benjamin, também era um judeu nato. Provavelmente filho de uma família detentora de recursos, Paulo foi educado aos pés do mais proeminente rabi: Gamaliel, membro do sinédrio, doutor da lei e neto do não menos famoso Hiliel. Isso proporcionou um aprofundamento em todo o Velho Testamento tão incomensurável que temos apenas uma sombra de sua relevância. Ao lermos At 5:34-39, perceberemos quão quisto era o mestre de Paulo naquela época e, presumo até que, detentor de certa moderação.
Agora, façamos um raio X de nosso perseguidor: nascido em uma família com recursos e em uma cidade que, impregnada com uma aura academicista, lhe proporcionou contato com diversas culturas. Versado em filosofia da igreja e romana, além de falar em hebraico, aramaico, latim e grego. Paulo não apenas era um dos poucos cidadãos romanos, como fazia parte da elite desse grupo. Para finalizar, ela era fariseu (em nossa opinião, um zelote26) ideológico, ou seja, amava as leis e realmente cria que prezar pelo judaísmo era a melhor forma de agradar a Deus.
Sejamos sinceros, se estivéssemos no lugar de Paulo e ouvíssemos falar de um grupo de hebreus que estavam menosprezando a lei mosaica e professando a fé em um homem que se dizia Deus, o que faríamos? Olhando por esse prisma, o apedrejamento de Estevão, as ameaças e prisões contra os abjetos cristãos não são apenas defensáveis, mas obrigatórias.
Esta era a situação de Saulo de Tarso antes de sua conversão: um fanático inveterado, completamente dedicado ao Judaísmo e à perseguição de Cristo e da igreja.
Um homem nessa condição mental e emocional de maneira alguma mudaria de opinião, nem se deixaria influenciar por outras pessoas. Nenhum reflexo condicionado ou qualquer outro artifício psicológico poderia converter um homem assim. Apenas Deus poderia alcançá-lo – e foi o que fez!
(Stott, 2014, p. 32)Paulo foi circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamin, hebreu de hebreus, da seita dos fariseus e um zeloso e implacável perseguidor do evangelho (Fp 3:3-6). Ele era um judeu puro-sangue. Tendo nascido em Tarso da Cilícia, ainda jovem foi enviado por seus pais a Jerusalém para aprender a lei aos pés de Gamaliel (At 22:3). Destacou-se como estudante erudito, poliglota, de cultura invejável. Quando esteve em Atenas, a capital intelectual do mundo, a terra de Péricles, Sócrates, Platão e Aristóteles, discutiu com os filósofos epicureus e estoicos (At 17:17,18). Ao escrever sua carta a Tito, citou Epimênides, um filósofo do século 6 antes de Cristo (Tt 1, 12). Paulo era um homem de cultura enciclopédica, de personalidade prismática e temperamento forte, um líder do judaísmo, um rabino de qualidades incomparáveis em sua nação.
(Lopes, 2011, pp. 64,65)Toda esta narrativa foi introduzida como parte do argumento de Paulo. Ele relata que, durante toda a sua vida, nutrira tão profunda rejeição pelo evangelho, que se tornara inimigo mortal e um destruidor do cristianismo.
(Calvino, 2013)
Agora que compreendemos o motivo e a forma da devoção paulina, temos noção de que nenhuma ação humana (seja por terceiros ou originada no próprio Paulo) seria capaz de convertê-lo ao cristianismo. Por isso o próprio Cristo apresentou-se transfigurado e executou a obra salvadora.
Os versículos 15 e 16 tratam da conversão em si, ou seja, quando Jesus apresentou-se a Paulo, que percebeu o desprezível caminho trilhado até aquele momento. Separando esse versículo em pequenos trechos, vemos o motivo de Paulo ter entregue seu “curriculum vitae”: não para enaltecimento próprio, mas para explicitar que a soberania e benevolência divina nunca perderam o contato e o controle da história, especificamente DE SUA história.
Versículo 15a: “Mas Deus separou-me desde o Ventre materno”, em outras traduções “antes mesmo de eu nascer”. Ambos os casos apontam exclusivamente para a soberania de Deus. A salvação em Cristo é pura graça e não há meritocracia humana que nos aproxime de Deus, assim como não há pecado algum capaz de nos separar dEle após alcançados pela obra salvífica de Seu filho na cruz, que É única e eficaz. Paulo não fora salvo porque escolheu o evangelho após Cristo apresentar-se, é justamente o contrário: Deus o havia separado sem que o apóstolo sequer soubesse e, no momento certo, o filho o chamou eficazmente por meio da graça irresistível.
Nada temos para oferecer a Deus e o pecado inerente ao ser humano impede-nos de arbitrariamente escolher o caminho da salvação. Por isso toda a obra redentora parte apenas de Deus. Talvez esse tipo de pensamento seja estranho porque mexe com os nossos brios e nivela-nos por baixo no cânon do pecado.
- Sendo a salvação dependente apenas da vontade e do agir divino, que gera a fé em nosso coração e mente, toda a nossa meritocracia cai por terra. Qualquer de nossas escolhas jamais levar-nos-á ao caminho da salvação.
- Somos igualados aos pecadores que mais repudiamos. A mesma obra do mesmo Cristo que nos remiu, também pode ter sido derramada para o Maníaco do Parque27, pedófilos, traficantes, corruptos etc. Isso não quer dizer que estes foram elevados ao mesmo patamar de qualidade de pessoas impolutas e de caráter reto, mas que – espiritualmente28 – TODOS NÓS estávamos no mesmo charco pecaminoso que eles até Cristo nos retirou daquele local e situação, nos limpou, nos deu novas vestes e nos fez Filhos de Deus.
Versículos 15b e 16a: “e me chamou por sua graça. Quando lhe agradou revelar o seu filho em mim”: Quando Cristo apresenta-se a Paulo, vemos que não há outra opção senão converter-se. Não estamos falando de coerção ou pseudoconversão, mas de uma realidade conhecida apenas por aqueles que, separados desde o ventre da madre por Deus, em dado momento da vida receberam o chamado eficaz29. Então, miraculosamente, as escamas do pecado lhes são retiradas dos olhos e passam a enxergar o caminho aberto apenas aos filhos do Pai remidos em Cristo. Simplesmente não conseguimos mais nos agradar em uma vida de pecados e, embora ainda escorreguemos na fé devido a mácula inerente a nossa humanidade, nos arrependemos e continuamos no árduo caminho da santificação.
Assim também Paulo não viu escolha, senão o cristianismo, assim que teve seus olhos abertos por ninguém menos que o próprio Cristo
Versículo 16b: “para que eu O anunciasse entre os gentios, não consultei pessoa alguma.” Vemos aqui um Paulo plenamente convicto de seu chamado ministerial: levar a Palavra de salvação aos gentios. Cristo nos chama, salva e transforma não para ficarmos acomodados em berço esplêndido, mas com o intuito de gerar frutos. É bem verdade que cada membro da comunidade possui dom(s) e chamado específicos, mas não esqueçamos do sacerdócio universal do crente. Todos somos chamados a proclamar as verdades bíblicas onde quer que estejamos. Paulo sabia que seu chamado específico era a proclamação do evangelho aos gentios e, por isso, entregou-se de corpo e alma a essa missão. Qual o nosso chamado? Que tipo de membros estamos sendo em nossa comunidade? Lembremos que A fé sem obras é morta (Tg 2:16-20) pois os frutos que damos são consequências inerentes à transformação causada pelo Espírito Santo em nossa caminhada de santificação.
[…] O propósito de Deus era revelar seu filho Jesus a Paulo e por intermédio de Paulo; o apóstolo deveria conhecer o Filho de Deus e torná-lo conhecido não apenas aos judeus (At 9:15; 26:20,23), mas também e, sobretudo, aos gentios […].
(Lopes, 2011, p. 70)
Quem eram os doze apóstolos de Cristo? Em Mt 10:2-4, Mc 3:16-19 e Lc 6:13-16 temos claramente a seguinte lista: Simão Pedro, André, Thiago filho de Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Marcos, Thiago filho de Alfeu, Tadeu, Simão e Judas Iscariotes. Com a traição e morte de Judas, era necessária a escolha de outro membro para o corpo apostólico, mas quais seriam os critérios para essa seleção?
Em At 1:21, 22 temos os dois critérios utilizados:
- Alguém que estivesse com eles durante todo o tempo que Cristo viveu com o grupo, desde o batismo de João até sua crucificação. Resumindo, alguém que houvesse aprendido diretamente com Cristo as bases do evangelho.
- Ser testemunha da ressurreição
O escolhido, após atendidos os respectivos itens e lançada a sorte, foi Matias. Retornando e debulhando os versículos 11 e 12, podemos compreender sua profundidade. Paulo estava informando de maneira pública e audível (versículo 11a: “Irmãos, quero que todos saibam”) que não fora um dos apóstolos ou qualquer outro discípulo quem lhe apresentou e discipulou nas verdades do evangelho, mas o próprio Cristo o fizera (versículos 11b e 12: “que o evangelho que por mim foi anunciado não é segundo os homens. Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de Jesus Cristo.” e versículo 17: “Nem tornei a Jerusalém, a ter com os que já antes de mim eram apóstolos, mas parti para a Arábia, e voltei outra vez a Damasco.”). Isto já supre um dos requisitos supracitados. Quanto a ser testemunha da ressureição, basta relembramos que ninguém menos que o próprio Cristo apareceu a Paulo quando do caminho de Damasco, conforme relatado em At 9:1-9.
Os dois pré-requisitos bíblicos foram cumpridos, portanto, não há mais dúvida ou pudor em chamar Paulo de Apóstolo ou 13º Apóstolo. Agora salvo em Cristo, era necessário preparar-se para o novo mundo do cristianismo que lhe foi apresentado. É dessa preparação que os versículos 17 em diante explicitam bem.
Cremos que neste período de afastamento, ao meditar nas escrituras do Antigo Testamento, sobe os fatos da vida e morte de Jesus, os quais ele já conhecia, e a experiência de sua conversão, o evangelho da graça de Deus lhe foi revelado em toda a plenitude. Alguém já sugeriu que que aqueles três anos na Arábia foram uma deliberada compensação pelos três anos de instrução que Jesus dera aos outros apóstolos, mas que Paulo não recebera. Agora era como se ele tivesse Jesus ao seu lado durante três anos de solidão no deserto.
(Stott, 2014, p. 35)Paulo havia sido um fariseu que buscava agradar a Deus pela justiça própria. Acreditava ser aceito por Deus por sua religiosidade e suas boas obras. Por causa de seu autoengano, chegou a perseguir furiosamente a Igreja de Deus para devasta-la. Logo que se converteu, porém, quis ficar a sós com Deus. Nesse momento não sentiu necessidade de orientação humana, mas da presença e da ajuda de Deus. Ele precisava de um tempo de quietude e solidão para reorganizar sua mente, seus conceitos, seu valores, sua teologia.
[…]
Porque Jesus passara três anos treinando seus apóstolos, agora investe três anos em Paulo, como um apóstolo chamado fora do tempo. Nesse período Paulo releu o Antigo Testamento e descobriu que aquele mesmo Jesus que outrora perseguira era de fato o Messias (At 9:22). O ensino detalhado de Paulo em Damasco, provando que Jesus é o Cristo, provavelmente aconteceu depois de sua estada na Arábia.
(Lopes, 2011, pp. 72,73)E, por outro lado, surge naturalmente o pensamento de que o que Paulo realmente precisava era de um retiro na Arábia, para descanso, oração e meditação, afim de que sua mente, violentamente sacudida, tivesse tempo e oportunidade de ponderar acerca das implicações das palavras que o Senhor lhe dissera no momento de sua inesquecível experiência. “e de novo regressei a Damasco”, escreve Paulo. Note que ele ainda não vai a Jerusalém para aconselhar-se com os outros apóstolos. Ao contrário, regressando a Damasco, ele começa a anunciar a Cristo em toda a sua plenitude. Ele o faz não nesta ou naquela moradia privada (cf At 18:7), nem tampouco numa escola (cf At 19:9), e sim imediatamente nas sinagogas (At 19:20)
(Hendriksen, 2009, p. 73)
Antes Paulo tinha na força de seu braço e no fio do seu conhecimento acadêmico-teológico a crença de que agradaria e glorificaria a Deus. Após o fatídico dia de sua salvação, o Espírito Santo o fez perceber que tudo isso era secundário, ou inservível, se o objetivo não fosse a glorificação da Santíssima Trindade. Após isso, o apóstolo não defenestrou todo o conhecimento que possuía, não amaldiçoou todo o aprendizado adquirido aos pés de Gamaliel e muito menos explicitou a irrelevância de seu conhecimento acadêmico filosófico. O apóstolo percebeu que precisava revisar todo esse bojo de conhecimento, passando-o pelo prisma do evangelho, daí seu recolhimento. Era necessário que aquele vaso quebrado fosse reconstruído pelo oleiro. A salvação ocorrera de forma imediata e eficaz; agora era necessário maturar na fé, em santidade e conhecimento da graça de nosso redentor.
É essencial que tenhamos uma ortodoxia firmada na Bíblia, na qual possamos nos ancorar e proteger-nos das intempéries. Contudo, sem a ortopraxia30 seremos como o Paulo perseguidor e sanguinário que, municiado com uma falsa percepção de justiça divina e desconhecendo a graça, queria mudar o mundo a ferro e fogo. Meros ativistas religiosos. Sem a ortodoxia31, seremos como os Gálatas que foram levados pelo primeiro vento de doutrina a insuflar suas velas. Jamais chegaremos à maturidade cristã e continuaremos na mediocridade religiosa. Se a maturidade cristã fosse um beija-flor, ortodoxia e ortopraxia seriam suas asas. Apenas quando funcionais e sincronizadas permitem os belos voos, manobras e sobrevivência. Se uma delas estiver com problemas, o animal poderá chegar ao óbito por inanição.
A igreja brasileira atualmente é espremida por dois grandes universos antagonistas32. De um lado temos os eternos neófitos que primam o ativismo religioso em detrimento da profundidade escriturística, resultando em uma diversidade herética e/ou um grande campo de videiras murchas e incapazes de produzir bons frutos, quiçá alimentar os famintos. Do outro lado temos o academicismo inerte que, de tão ensimesmado, esquece a principal meta da igreja: a proclamação pura e simples do evangelho. Prefere discutir – inclusive nas línguas originais – o sexo dos anjos ou a quantidade de pregos que foram cravados em Cristo e, dessa forma, quando produzem algum bom fruto, este é inalcançável aos famintos espirituais.
Paulo vai ao encontro de Pedro e Thiago após os três anos em que fora discipulado pelo próprio Cristo. Não para pedir a bênção ou autorização de pregação do evangelho, mas com o intuito de ter comunhão com os salvos e ratificar a toda “comunidade” apostólica que professava a mesma fé. Seria impossível ensinar a Paulo todo o evangelho – ao menos de forma real e profunda – da forma com que ele pregava, em apenas quinze dias. Isso reafirma que não foi “carne ou sangue” que ensinou-lhe o evangelho, mas o próprio Cristo. Cremos que o destaque dessa aproximação foi a comunhão dos santos; foi nos ensinar que não devemos caminhar sozinhos na jornada cristã, mas apoiar-nos uns nos outros, reconhecer os defeitos de terceiros e os nossos próprios para que possamos mutuamente nos repreender em amor. Lembremos como Paulo repreende a Pedro (Gl 2:11-14), ou mesmo seu atrito com Barnabé (At 14:36-41) em que tiveram divergências ministeriais, mas nada leva-nos a crer em uma ruptura relacional. Não adianta supraespiritualizar passagens como essas, menosprezando os erros humanos e arrumando desculpas absortas como se “a cisão entre Paulo e Barnabé fora providência divina para otimizar a propagação do evangelho”. Em absoluto, a incapacidade de chegarem a um consenso foi um erro humano registrado para ensinar a todos os membros do corpo de Cristo que nem mesmo nós estamos livres desse tipo de problema.
A real comunhão dos santos não é uma simples recomendação ou orientação, mas uma das mais concretas consequências da transformação e maturação na fé causada pelo Espírito Santo.
Entre os versículos 18 e 24 também vemos Paulo exibindo seu itinerário: Jerusalém, Síria e Cilícia. Retornando a Jerusalém, Paulo demonstra coragem, pois sabia que provavelmente tornar-se-ia alvo dos dois grupos ali residentes. Tomando como exemplo Ananias, que mesmo sob ordem direta de Deus, relutou em ter com Paulo quando da sua conversão, por medo de encontrar um facínora, era bastante plausível que sofresse a rejeição dos cristãos ali presentes. Além disso, certamente os fariseus daquele local reclamariam a cabeça do traidor. O apóstolo sabia que poderia não encontrar amparo naquele lugar, mas não utilizou isso como desculpa. Conforme At 9:23-25, realmente houve subterfúgios utilizados pelos fariseus visando o assassinato de Paulo, obrigando-o a fugir para Síria e Silícia.
[…]Sua volta a Jerusalém não foi fácil. Ele arriscou sua vida. Seus amigos de antes, os judeus, reclamariam seu sangue, porque para eles Paulo era um renegado e traidor. Já os cristãos poderiam rejeitá-lo por pensar que ele estava sabotando a fé cristã e se infiltrava na igreja para persegui-la (At 9:26)
(Lopes, 2011, p. 74)
Os versículos 23 e 24 fecham o capítulo de forma magistral. Primeiramente exibem a força de nosso testemunho, a responsabilidade de fazer nossas vidas outdoors do evangelho. Paulo não conhecia as outras igrejas; as suas histórias anterior e ulterior à conversão o precediam: “Aquele que antes perseguidor, agora propaga a fé que tentara destruir”. Não obstante, tão importante quanto termos uma vida de retidão e um testemunho que realmente glorifique a Deus, é a necessidade de absorver em nosso meio aqueles que um dia estiveram perdidos. Resumindo, perdoar incondicionalmente. Possivelmente alguns dos irmãos que acolheram Paulo em seu seio eclesiástico haviam sido ou conhecido vítimas da perseguição paulina, mas o amor superou o ódio e os membros do corpo de Cristo passaram a reconhecer o próprio Mestre na nova vida do apóstolo.
Todos conhecemos a parábola do filho pródigo e ficamos felizes, com total razão, ao percebermos sermos aquele filho alcançado pelas consequências de suas escolhas, mas também encontrado por um pai de braços abertos e exalando graça ao invés de justiça. Façamos agora um exercício mental e percebamos que também é possível assumir a persona dos demais personagens:
- PAI: Quando não olhamos para as faltas do nosso irmão arrependido, mas estendemos a mão para trazê-lo novamente à comunhão dos Santos, assim como Deus, em Cristo um dia fez conosco.
- IRMÃO: Invejoso e mesquinho, muitas vezes passa despercebido em nossa leitura. Assim também o somos quando preferimos continuar acusando e pisoteando uma ovelha que volta arrependida ao aprisco.
Assim como vemos aquelas igrejas acolherem Paulo (fazendo assim o tipo do pai na parábola supracitada), também temos que acolher todos os perdidos e que suplicam pelo cuidado do mestre.
Um resultado disso é que “ele não era conhecido de vista das igrejas da Judéia” (versículo 22). Estas o conheciam apenas de ouvir falar e o rumor que ouviam era que o seu perseguidor de outrora se tornava pregador (versículo 23). Na verdade, ele se tornara pregador “da fé” que havia aceitado e que anteriormente “procurava destruir”. Sabendo disto, “glorificavam a Deus a meu respeito”. Eles não glorificavam Paulo, mas a Deus em Paulo, reconhecendo que este era um troféu extraordinário da graça de Deus.
(Stott, 2014, p. 36)Não havia desconfiança, como uma vez houve nos de Jerusalém (At 9:26) nem eram indiferentes (cf Ap 3:16), nem rancorosos, nem ainda simplesmente felizes. Ao contrário, eles sabiam que tudo o que vem de Deus deve ser-lhe devolvido em forma de louvor e gratidão, e que este círculo jamais deve ser quebrado. Assim reconheceram o glorioso caráter dos maravilhosos atributos de Deus: poder, soberania, sabedoria, graça, misericórdia, etc., concretizados por meio da salvação de um miserável, de um implacável perseguidor, transformando-o em um apaixonado arauto do evangelho! Que profundidade de sentimento teria dominado totalmente a alma de Paulo enquanto escrevia estas últimas palavras: “E glorificavam a Deus por minha causa” (literalmente, “em mim”)!.
(Hendriksen, 2009, p. 83)
Notas de Rodapé
- O povo Celta era dividido em diversos clãs, ou seja, possuíam uma forma descentralizada de governo o que findou por facilitar a submissão aos romanos. Alguns dos povos que formavam os Celtas foram os Batavos, Belgas, Bretões, Caledônios, Gauleses, Gálatas, Trinovantes, etc. ↩︎
- Veja a proximidade dos termos que nomeavam essas tribos: Galli = Gauleses = Guerreiros / Galatae = Gálatas = Nobres. ↩︎
- Pelágio foi um monge ascético que cria na capacidade do homem em alcançar a salvação, ou seja, negava o pecado original. Segundo seus ensinos, o homem nasce neutro e torna-se um pecador devido ao meio; contudo, também possui plena capacidade de retornar ao estado puro sem a necessidade da intervenção divina. ↩︎
- Os semipelagianos acreditam no pecado original; portanto, o homem não nasce moralmente neutro, mas completamente manchado pelo pecado. Creem também que apenas Deus pode salvar o pecador, mas a iniciativa deve partir do homem. Muitos vinculam os ensinamentos de Jacob Arminius com esse tipo de teologia, o que não passa de mera leviandade. ↩︎
- Embora cresse em Deus, Ário rejeitava totalmente a divindade de Cristo. Além disso, cria apenas da transcendência do Pai, não em sua imanência, tornando-o alguém distante, inalcançável e incompreensível. Podemos enxergar as Testemunhas de Jeová como uma linha secundária ou atual do arianismo, visto que também não veem Jesus como Deus. ↩︎
- A passagem do politeísmo para o monoteísmo não foi rápida e é, por si só, mais um exemplo da Revelação Progressiva de Deus acerca de Si ao seu povo. Abraão recebeu seu chamado quando morava na cidade Caldéia de Ur, que era cosmopolita e dada a idolatria. Após isso inicia-se a fase da monolatria onde até pode-se reconhecer a existência de outros deuses, mas apenas um é digno de toda a adoração. Por isso devemos ter cuidado com a expressão “Deus dos deuses”, pois ainda que coloque Jeová como Deus soberano, reconhece a existência de demiurgos. Enfim chegamos ao monoteísmo, e reconhecemos Jeová como único Deus existente. Há aqueles que ainda creem em uma subclassificação chamada de Monoteísmo Ético onde esse único Deus dita e exige padrões éticos de seus servos, o que pincela a imanência de Deus. ↩︎
- Como a reconstrução da Arca da Aliança e de toda ou parte da liturgia inerente aos seus ritos. Festas como a Páscoa e tantas outras são seguidas Ipsis Litteris conforme o descrito no VT. Não surpreender-nos-ia vir à tona instituições que imolassem cordeiros e aspergissem sangue nos umbrais do templo. Este tipo de pensamento está tão arraigado em nossas igrejas que insistimos em chamar os músicos de levitas. ↩︎
- Os ascetas (adeptos do ascetismo) criam que a evolução espiritual se dava pela negação aos prazeres carnais e psicológicos. ↩︎
- Podemos dividir o judaísmo veterotestamentário em três grandes grupos:
9.1.Religiosos:
9.1.1. FARISEUS: Criam na ressurreição dos mortos, nos anjos e em Deus como soberano da história. Não se interessavam por política. São legalistas.
9.1.2.SADUCEUS: Desapareceram junto com o templo. Extremamente interessados em política. Faziam parte de uma classe social abastada. Responsáveis pelo templo.
9.1.3.ESSÊNIOS: Similares aos Monásticos. Preferiam a vida em santificação ao sacrifício. Fugiram para o deserto quando da Revolta dos Macabeus, além de serem extremamente fechados, tanto que não são citados no Novo Testamento.
9.2.Políticos:
9.2.1.GALILEUS: Assim como os herodianos, não aceitavam que um estrangeiro comandasse Israel por tratar esse fato como antibíblico
9.2.2.ZELOTES: Ultranacionalistas que preferiam o confronto armado à submissão a um estrangeiro. Quando necessário defenestrar qualquer governo gentio, eram apoiadores dos fariseus.
9.3.Sociais:
9.3.1.ESCRIBAS: Professores da lei que representavam o sistema judiciário da época. Sua quantidade é inversamente proporcional à grande influência que possuíam.
9.3.2.NAZARENOS: Judeus que faziam voto de separação por toda a vida ou por um período determinado. Jamais cortavam os cabelos, não à toa, um expoente desses fora Sansão.
9.3.3.PROSÉLITOS: Gentios que passaram ao Judaísmo e, como prova, recebiam a circuncisão.
9.3.4.PUBLICANOS: Judeus que trabalhavam para o governo romano cobrando impostos aos seus. Tachados como desleais e têm Mateus como principal exemplo.
9.3.5.SAMARITANOS: celebravam APENAS a Deus e tinham Moisés como principal profeta. ↩︎ - “A opinião dos teólogos liberais modernos pode ser simplesmente posta da seguinte maneira: os apóstolos foram simples testemunhas de Jesus Cristo que viveram no primeiro século. Nós, por outro lado, somos testemunhas do século XX, e o nosso testemunho é tão bom quanto o deles, se não melhor. Portanto, tais estudiosos ao lerem passagens das epístolas de Paulo das quais não gostam, dizem: ‘Bem, essa era a opinião de Paulo. A minha é diferente.’ “ (Stott, 2014, pp. 16-17) ↩︎
- “Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe” [Deum pairen qni ecdesian non habet matrem] – Ciprião ↩︎
- Segundo Geisler e Nix há três formas de enxergarmos a inspiração bíblica:
12.1.ORTODOXA – A Bíblia é a palavra de Deus: esta é a posição que abraçamos. Possui duas vertentes: Ditado Verbal e Conceito Inspirado.
12.2.MODERNA – A Bíblia Contém a Palavra de Deus: Trata a escritura como um misto de verdade revelada e mitos criados por seus autores. Divide-se em Iluminação e Intuição.
12.3.NEOORTODOXA – A Bíblia Torna-se a palavra de Deus: apenas quando há um contato pessoal entre Deus e o homem é que a Escritura passa a ser inspirada. Também divide-se em duas correntes: Visão Demitizante e Encontro Pessoal. ↩︎ - Que serão analisadas em outro documento. ↩︎
- Função gramatical onde o verbo assume algumas características nominais, passando a expressar uma ação ainda em andamento. (Ex: Carlos está cantando). ↩︎
- Idêntico ao que encontramos na Vulgata Latina: “Miror quod tam cito transferimini ab eo, qui vos vocavit in gratia Christi, in aliud evangelium;” (Vaticano, s.d.) ↩︎
- Alguém poderá defender um direcionamento individualizado, onde o autor focasse em cada membro daquela igreja de modo bastante específico e não na corporação como um todo. Neste caso, a tradução no subjuntivo seria perfeita, visto que Paulo, não sabendo quem voltar-se-ia ao judaísmo, poderia utilizar-se de probabilidade. Ocorre que a carta em questão não fora escrita a um indivíduo específico (como ocorrera em Filemon) e/ou não trata pessoal e individualmente com qualquer membro daquela igreja, mas tem como remetente a comunidade em geral. E toda esta comunidade estava – corporativamente – desviando-se do aprisco cristão. ↩︎
- Decreto-Lei nº 1001/69 ou Código Penal Militar, artigos 187 a 194. ↩︎
- Decreto-Lei nº 1001/69 ou Código Penal Militar, artigo 57º ↩︎
- Embora retirado de um livro de fantasia, o trecho abaixo explicita bem como a miséria mental pode – e muito – superar danos físicos.
“Após um tempo indeterminado ele passou a esperar ansioso pelas visitas dos carcereiros. Eles traziam dor e humilhação, mas eram o único contato humano que ele ainda possuía. Ver seus rostos, de certa forma, impedia-o de enlouquecer. Ouvir suas vozes lembrava-o que ainda existiam outras pessoas no mundo. Sentir seus socos e pontapés fazia-o perceber que ainda estava vivo. Aos poucos os rostos de Korin, Dunnius, Niccolas, do prior e de Johrgrund sumiram de sua mente. Ele não lembrava de nenhum rosto além dos dois carcereiros. Em sua lembrança, as feições dos algozes tomaram o lugar de sus amigos mais queridos. Até mesmo o rosto amado e odiado de Áxia adquiriu traços dos seus torturadores. Até mesmo o semblante de Madre Heléne seguiu-o e depois julgando-o. Até mesmo a linda face de Bellitz. Ele desenvolveu uma espécie de afeição doentia pelos dois. Eram as únicas pessoas em seu mundo. Convenceu-se de que eles faziam aquilo por dever ou para lhe ensinar algo. Convenceu-se de que ele era mesmo maligno. Que merecia.
Ruff esqueceu do dia em que exigiu o nome dos dois. Todo o orgulho e as bravatas deixaram seu espírito. Então, certo dia, mais uma vez, ele perguntou:
– Como se Chamam?
O mesmo carcereiro se virou para ele:
– Por que quer saber isso, prisioneiro?
– Porque são meus únicos amigos.
Eles riram e chutaram-no com ferocidade renovada.
Sua vida antes da prisão parecia fantasiosa. O mosteiro era um paraíso impossível. As aventuras conquistadas no passado pareciam irreais. Ruff começou a duvidar que tudo aquilo tivesse realmente acontecido. Então tentou lembrar do próprio nome e notou com horror que não conseguia. Após um ano chamando-o de “prisioneiro”, eles tiveram sucesso. Reduziram-no a algo menos que humano. Ele já não era Ruff Ghanor. Era o prisioneiro. Sua vida era a masmorra e ele merecia estar lá. Convenceu-se de que era apenas aquilo. Sempre fora, sempre seria. Era impossível que houvesse derrotado um dragão, feito milagres e tentado reunir heróis.
Ele era o prisioneiro. Era um prisioneiro culpado e maligno que merecia estar lá. (Caldela, 2015, pp. 133,134)“ ↩︎ - As palavras “tarasso” e “metastrepsai” podem ser compreendidas como sacudir/agitar e inverter, respectivamente. ↩︎
- Originalmente: “O evangelho é maior do que os falsos mestres”. Tomamos a liberdade de alterar este tópico por compreendermos que o evangelho é superior a QUALQUER mestre, seja ele falso ou tenha cometido apenas um pequeno deslize. ↩︎
- Para maiores detalhes, ler “Sobre os Judeus e Suas Mentiras”, de Martinho Lutero e/ou pesquisar sobre Noite dos Cristais Quebrados. ↩︎
- O quadrinho MAUS: A História de um sobrevivente – Spielgeman, Art, com a edição completa lançada em 2005 no Brasil. O autor, um judeu polonês, conta nessa obra sua vida durante o holocausto. ↩︎
- Além de filósofo e orador, era um grande estadista. Entre seus feitos temos a obra “Contra Catalínia” ou “Catalinárias”, onde ele expõe e defenestra o golpe de Lúcio Sérgio Catalina e seus asseclas. Outro grande feito veio com as “Filípicas” onde o autor insufla Otávio contra Marco Antônio devido às aspirações ditatoriais deste. Como Marco Antônio vence a guerra, Cícero perde a cabeça. ↩︎
- Tanto que cerca de 66% da população romana não era cidadã. Alguns dos direitos destes cidadãos são apontados abaixo:
25.1.Julgamento penal perante César
25.2.Imunidade legal dos açoites senão por condenação de fato
25.3.Imunidade a pena de crucificação ↩︎ - Ver nota nº 9 ↩︎
- Caso que chocou o Brasil onde o motoboy Francisco de Assis Pereira estuprou e matou diversas mulheres no Parque do Estado, na capital de São Paulo. ↩︎
- Observem que, segundo a legislação brasileira, todos esses casos DEVEM pagar na medida de suas faltas, visto que são consequências de suas ações. Mas, espiritualmente, não importa o teor do pecado, pena, dolo ou culpa, todos os salvos em Cristo estarão no céu quando da segunda volta do nosso redentor, assim como o ladrão na cruz que, mesmo encontrando a salvação nos momentos finais de sua vida, não deixou de pagar a pena legal perante a sociedade. ↩︎
- Nós que professamos a fé reformada cremos no monergismo. As Doutrinas da Graça (infelizmente apelidadas de Calvinismo, coisa que não agradou sequer o próprio) são condensadas, mas não exauridas, em cinco pontos – TULIP:
Total Depravaty: Depravação total
Unconditional Election: Eleição incondicional
Limited Atonement: Expiação Limitada
Irresistible Grace: Graça Irresistível
Perseverance of the Saints: Perseverança dos Santos ↩︎ - Prática funcional e sincera dos preceitos bíblicos. ↩︎
- Doutrinas, regras de fé e prática, conformidade com os princípios expressados na Bíblia. ↩︎
- Essa divisão entre teoria e vivência, ortodoxia e ortopraxia, academicismo e prática cristã possui uma raiz longínqua. A professora Cristiane Almeida de Azevedo é magistral quando mostra-nos a raiz da palavra “Religião”. Segundo seu artigo, os romanos utilizavam o verbete religio de uma forma ordinária onde o “zelo constante em relação aos deuses dizia respeito aos seus atos cotidianos”, ou seja, a adoração era algo natural, diuturno e constante. Mais afrente este mesmo povo separou esse conceito em outros dois: religare e religere. Religare representava a ligação entre o homem e deus por meio de uma percepção mais passiva ou abstrata (espiritual). Religere vincula-se ao atos rituais, ficando mais próximo da nossa liturgia. Resumindo: Religio = Religare + religere. ↩︎
Bibliografia
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- Almeida, J. F. (2008). Bíblia Sagrada Gigante (12ª ed.). (J. F. Almeida, Trad.) Santo André, SP, Brasil: Gográfica.
- Azevedo, C. A. (2010). Aprocura do Conceito de Religio: Entre o Rligere e o Religare. (D. Redyson, Ed.) Religare: Revista do Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da UFPB, 7. Acesso em 05 de 10 de 2017, disponível em http://www.biblionline.ufpb.br/ojs/index.php/religare/article/viewFile/9773/5351
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