Análise do Livro de Gálatas – Parte 2

Capítulo 2

Versículos 1 a 10

O apóstolo Paulo ainda está defendendo seu apostolado e seu evangelho. Os inimigos ainda são os mesmos, os judaizantes. O propósito deles também é o mesmo, ou seja, perverter o evangelho e perturbar a igreja. […] No capítulo 1 Paulo mostrou que seu evangelho vinha de Deus e não dos homens. Agora, ele mostra que seu evangelho não é diferente, mas precisamente o mesmo dos outros apóstolos. A fim de provar que o seu evangelho é independente do evangelho dos outros apóstolos, Paulo destacou que fizera apenas uma breve visita a Jerusalém em quatorze anos. A fim de provar que o seu evangelho era, contudo , idêntico ao evangelho deles, o apóstolo agora diz que, ao fazer a devida visita a Jerusalém, o seu evangelho fora endossado e aprovado pelos demais.
(Lopes, 2011, pp. 79,80)

[…] No capítulo primeiro ele mostrou que seu evangelho vinha de Deus e não dos homens. Agora, na primeira parte do capítulo 2, ele mostra que o seu evangelho é precisamente o mesmo dos outros apóstolos; não é diferente.
(Stott, 2014, p. 40)

De um lado dessa disputa, temos Paulo a afirmar: O evangelho da fé em Cristo é para gente de todas as culturas. Do outro lado, temos seus opositores dizendo: Nem todo o povo judeu é cristão, mas todos os cristãos devem se tornar judeus.
Se os apóstolos de Jerusalém tivessem tomado o partido de quem ensinava contra Paulo, ou mesmo se os tolerassem, teriam dividido a igreja em duas. Nenhum dos lados teria aceitado o outro plenamente, e ambos questionariam se os membros do outro grupo ream mesmo salvos! As igrejas gentias de Paulo duvidariam de que as igrejas judaicas tivessem mesmo fé em Cristo, e as igrejas judaicas também duvidariam da salvação dos gentios. 
(Keller, 2015, p. 41)

As duas primeiras ofensivas não lograram êxito. A imagem do novo Paulo, regenerado pelo poder do Espírito Santo, permanecia tão impoluta quanto a veracidade de seu chamado apostólico divinal. Assim sendo, os judaizantes utilizaram outra estratégia que podemos resumir como “Divide Et Impera” ou sua variante “Divide Ut Regnes”, ou seja, Divide e Impera ou Dividir para Reinar, respectivamente. Os judaizantes tentaram isolar Paulo dos demais apóstolos apresentando-o como inferior a eles, secundário ou pregador de um evangelho imaturo. Caso os biltres fossem vitoriosos, Paulo e seus ensinamentos seriam defenestrados do meio apostólico e, em pouco tempo, cairiam no ostracismo. Mas comprovada a autoridade apostólica de origem una, a homogeneidade dos ensinamentos e a equivalência de autoridade, mais um ataque cairia por terra.

Logo no primeiro versículo nos deparamos com duas informações que não podem passar despercebidas: O prazo decorrido desde a última visita a Jarusalém e seus dois ilustres companheiros de viagem. Explicitando que subiu a Jerusalém após quatorze anos, o autor suscita um questionamento interessante: em qual das viagens missionárias de Paulo essa visita ocorreu? Corroboramos com a tese que tal fato ocorreu quando de sua segunda viagem missionária1, não só por termos nomes como Lopes2, Calvino3 e Hendriksen apoiando esta idéia (este último com duas laudas de excelentes argumentos), mas também por percebermos que nesta mesma data as ofertas enviadas a Jerusalém (Gl 2:2 e At 11) chegam ao seu destino4.

Lopes condensa muito bem as cinco viagens que Paulo fez a Jerusalém

VIAGEMTEXTODESCRIÇÃO
Gl 1:17,18 ; At 9:26Visita efetuada três anos após a sai conversão
At 11:29,30; 12:25Paulo e Barnabé levaram socorro financeiro aos pobres da Judéia
At 15:2-29Após o Concílio de Jerusalém que resolveria o problema dos judaizantes
At 18:22Passagem rápida ao final da segunda e antes de sua terceira viagem missionária
At 21:17Envio de oferta das igrejas de Macedônia e Acaia aos pobres da Judéia
As cinco visitas de Paulo a Jerusalém. Dados compilados de Lopes, pp 80

Agora que sabemos o momento histórico que estamos situados, podemos analisar os dois personagens deveras importantes:

  • BARNABÉ: Primeiramente, deixemos que a própria bíblia o apresente: “Homem bom, cheio do Espírito santo e de fé” (At 11:22-24); Conciliador, visto que aproximou os discípulos de Jerusalém e de Paulo (At 9:26-28); Foi um encorajador (At 4:36). Além das incontestes características interpessoais, Barnabé foi um levita nascido na ilha de Chipre e seguidor da lei, ou seja, era um legítimo judeu e certamente seria acolhido pela turba que perseguia Paulo e seu evangelho. Embora não fosse um dos apóstolos, Barnabé fazia parte dos 70 comissionados por Cristo (Lc 10) para a propagação do evangelho, tanto que aparece em At 14: 1-20 pregando o evangelho em Icônio, Listra e Derbe, além de realizar sinais e maravilhas junto com o apóstolo Paulo.
  • TITO: Jovem gentio cristão, provavelmente irmão do apóstolo Lucas, não circuncidado e sequer submetido as demais leis judaicas. Embora não seja mencionado no livro de Atos, é provável que já fosse um obreiro bastante ativo. Filho na fé e bastante próximo de Paulo, este menciona-o em sua segunda carta aos Coríntios nada menos que oito vezes (2:13; 7:6,13,14; 8:6,16,23; 2:18) tratando-o como amigo, alegrando-se com sua presença ou mesmo lamentando a sua ausência. Com a experiência adquirida em Corinto, Paulo o incumbiu da igreja cretense onde assumiria a função de Bispo5 de toda a ilha. A Bíblia de Estudo Pentecostal oferece um excelente resumo da Epístola enviada a Tito, permitindo-nos vislumbrar a imensidão de sua responsabilidade

Paulo escreveu primeiramente para instruir Tito na tarefa de: (1) Pôr em ordem o que ele (Paulo) deixara inacabado nas igrejas de (Creta). Inclusive a instituição de presbíteros nessas igrejas (1:5); (2) Ajudar as igrejas a crescerem na fé, no conhecimento da verdade e em santidade (1:1); (3) Silenciar  falsos mestres (1:11); (4) Vir até Paulo, uma vez substituído por Ártemas ou Tíquico (3:12). (Almeida J. F., 1995, p. 1887)

Mesmo com todas essas credenciais o fato de não ser adepto do judaísmo era suficiente para Tito não ser aceito entre os judaizantes.

O segundo versículo inicia com uma belíssima afirmação: “Fui lá por causa de uma revelação”. Essa frase deixa claro (mais uma vez) que a visita de Paulo não objetivara um concílio onde seu conhecimento fosse perscrutado para só então ser ou não avalizado pelos “apóstolos de verdade”. Em absoluto. Fora o próprio Deus que o revelou o motivo daquela visita, provavelmente consequência da profecia presente em At 11:27-30 onde Ágabo previu uma imensa fome em todo o mundo romano. Este foi o objetivo precípuo desta visita: Paulo e Barnabé entregarem aos cristãos de Jerusalém as ofertas angariadas em outras igrejas, com o intuito de arrefecer um pouco da miséria pela qual aqueles irmãos estavam enfrentando.

A segunda parte do versículo, onde Paulo informa sobre uma reunião em privado com “os de reputação” (c.f. NVI), “aos que estavam em estima” (Almeida J. F., 1995) ou “aos que pareciam de maior influência” (Shedd & Almeida, 1996), pode parecer algum nível de submissão aceita pelo apóstolo em reação a Tiago, Pedro e João, caso façamos uma leitura superficial. Analisando o texto de uma forma mais apurada vemos que, na verdade, eram os judaizantes que utilizavam essas nomenclaturas com os três apóstolos supracitados intentando – forçadamente, claro – elevá-los a uma casta superior à de Paulo, que repete as mesmas palavras, mas recheadas em ironia. Era como se o apóstolo dissesse aos judaizantes: “A estas colunas da igreja que vocês insistem em afirmar serem superiores a mim, exporei o mesmo evangelho que venho apresentando aos gentios”. Salientemos que Paulo não estava denegrindo a imagem de Tiago, Pedro e João perante a sua, apenas rebatendo o ataque oriundo da frente Judaizante.

A terceira parte do segundo versículo é um arremate perfeito. Paulo afirma a todos que já tinha plena convicção da genuinidade do evangelho que pregava e o encontro em privado com os demais apóstolos apenas ratificaria tal fato ao público em geral, inclusive os próprios judaizantes.

Hendriksen explana bem o que teria ocorrido em caso de divergência entre Paulo e as “Colunas”.

Se enquanto Paulo estivesse pregando o evangelho da justificação pela fé, sem as obras da lei, os demais apóstolos concordassem com ele em essência, porém fossem “brandos” em sua atitude em relação àqueles que seriamente punham em dúvida a exatidão das convicções e da pregação de Paulo, a causa da obra missionária entre os gentios teria sido seriamente comprometida. A eficácia do trabalho que Paulo realizara no passado e que ainda realizava estaria decisivamente enfraquecida. (Hendriksen, 2009, pp. 96,97)

Enquanto Calvino faz uma excelente leitura sobre essa reunião privada entre os pares.

Os apóstolos não acharam errado o fato de que Paulo não esperara para obter a aprovação deles. Pelo contrário, sem disputas ou repreensão, aprovaram os labores de Paulo; e fizerma isso seguindo a orientação do mesmo Espírito que conduziu Paulo em sua viagem até Jerusalém. Por conseguinte, ele não foi colocado no ofício apostólico por determinação dos outros apóstolos, ele foi reconhecido como um apóstolo. (Calvino, 2013)

Os versículos 3, 4 e 5 colocam-nos no cerne do embate e tornam claros o motivo de Paulo ter trazido Tito consigo. Sendo Barnabé acolhido em seio cristão pelos que estavam em maior estima de forma idêntica a Tito, que era grego e incircunciso, o alicerce da argumentação judaizante esvair-se-ia. E foi justamente o que ocorreu visto que este não sofrera qualquer constrangimento concernente a execução da circuncisão.

Portanto, a aceitação de Tito pelos crentes judeus serviu como uma ilustração vívida desse princípio, segundo o qual o indivíduo se torna espiritualmente puro e aceitável através de Cristo , e não por meio de quaisquer feito ou rituais. (Keller, 2015, p. 44)

[…] Se um cristão de linhagem inteiramente gentílica não foi obrigado a circuncidar-se, apesar de agora estar no próprio centro do judaísmo, e numa assembleia na qual os líderes cristãos eram judeus e ocupavam papel de influência, então ninguém objetaria em abrir mão desse requisito no caso de outros convertidos não judeus que estavam vivendo em um ambiente parcial ou completamente gentílico. Os líderes de Jerusalém estiveram de acordo desde o princípio com a posição de Paulo e Barnabé no tocante a questão de circuncisão dos gentios que aceitavam a Cristo. (Hendriksen, 2009, pp. 97,98)

Achamos que tratar esses espiões judaizantes como “falsos irmãos” foi um tanto eufêmico por parte de Paulo. Este grupo estava – de forma ativa e organizada – entrando no seio eclesiástico para destruir a liberdade alcançada por Cristo na cruz do calvário, prendendo-nos novamente as correntes do legalismo ou de uma religiosidade Pseudocristã. Dessa forma poderíamos até compreender Deus e seus atributos, mas apenas o temeríamos, jamais o amaríamos como somos chamados a fazer em Cristo. O modelo expansionista persa é um belo exemplo disso pois não iniciava a uma invasão imediata, mas enviava arautos “solicitando” a rendição de um determinado povo. Caso aquela população se curvasse, deveria pagar tributos contínuos e entregar soldados que seriam somados ao exército do novo imperador. Acordada essa rendição todo o sistema político, religioso e econômico – agora sub judice aos persas, claro – poderiam continuar. Isso era liberdade? Claro que não, todos sabiam que em caso de rebelião, desobediência ou não pagamento dos tributos o exército persa destruiria toda a cidade. Maquiavel traz um texto interessante sobre esse ponto de inflexão entre obediência por medo e amor:

Chegamos assim à questão de saber se é melhor ser amado [para mim isso não é problema] do que temido. A resposta é que seria desejável ser ao mesmo tempo amado e temido, mas que, tal combinação é difícil, é muito mais seguro ser temido, se preciso optar [preciso apenas de uma delas]. […] Os homens têm menos escrúpulos em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer [crê-se muito no contrário], pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca falha [o castigo precisa ser imediato]6(Niccolò, 2007, pp. 88,89)

Reflitamos na crueza maquiavélica e – após passada a consternação – percebamos o quanto a igreja de Gálatas estava sendo ingrata ao rejeitar o gesto de amor supremo dada por Cristo na cruz do calvário. Estavam retornando à escravidão farisaica-legalista que castiga seus seguidores para guiá-los a um padrão inalcançável, e também por não atingirem o nível requerido. Como um péssimo gestor que impõe uma meta absurda, não provê aos seus subordinados as ferramentas mínimas de trabalho e ainda os castiga por não conseguirem alcançar o objetivo imposto. Conforme Jo 3:16, em Cristo temos um relacionamento amoroso com o Deus verdadeiro, mas fora dEle, resta-nos apenas o medo da ira desse mesmo Deus.

Keller nos apresenta dois tipos de liberdade que o verdadeiro evangelho produz: a cultural e a emocional, achamos interessante acrescer a essa lista uma terceira liberdade, a relacional.

  • LIBERDADE CULTURAL
    • A religião moralista tende a pressionar seus membros a adotarem regras e regulamentos muito específicos quanto ao que vestir e como se comportar no dia a dia. Por quê? Se sua salvação depende da obediência a regras, você quer que essas regras sejam muito específicas, exequíveis e claras. Você não quer um simples: ame seu próximo como a si mesmo, porque esse é um padrão inatingível de tão alto, com implicações infinitas! Você quer: Não vá ao cinema ou Não ingira álcool ou não coma esse tipo de comida. Mas regras e regulamentos desse tipo são da área da vida cultural diária. Se os falsos mestres tivessem imposto sua vontade, um italiano ou africano não poderia tornar-se cristão sem se tornar culturalmente judeu. (Keller, 2015, pp. 44,45)
  • LIBERDADE EMOCIONAL
    • Quem acredita que nosso relacionamento com Deus se baseia na observação de um comportamento moral, caminha sobre uma esteira móvel infinita de culpa e insegurança. Como revelam as cartas de Paulo, ele não liberou os crentes gentios dos imperativos morais dos dez mandamentos. Os cristãos não podiam mentir, roubar, cometer adultério e assim por diante. Todavia, mesmo não estando livres da lei moral como um modelo de vida, os Cristãos estão livres dela como um sistema de salvação. Obedecemos, não por medo ou insegurança quanto à esperança de merecer nossa salvação, mas na liberdade e segurança de saber que já estamos salvos em Cristo. obedecemos na liberdade da gratidão. (Keller, 2015, p. 45)
  • LIBERDADE RELACIONAL: Deve ser vista sob três parâmetros que, mesmo extremamente complexos, de tão equilibrados seriam capazes de gerar lindos fractais.
    • Liberdade relacional do homem para com Deus
      • Quando a irresistível graça de nosso salvador nos alcança, temos os olhos abertos de uma forma maravilhosa. Passamos a ver que o Pai, em sua transcendência, jamais perdeu o controle de qualquer elemento da criação e que todos estamos e continuaremos sob o seu governo geral, estejamos cônscios ou não deste fato
      • As coisas criadas interagem continuamente umas sobre as outras, em suas relações de causa e efeito. As propriedades e poderes, através dos quais as coisas atuam, foram conferidas a cada uma por ocasião de sua criação e têm continuidade dentro do ato de preservação. Segue-se daí que todas as coisas criadas interagem entre si, produzindo alterações umas nas outras, mediante a vontade e o poder de Deus. Se elas dependem de Deus quanto à sua existência, sem dúvida devem ser dependentes dEle quanto às suas propriedades e poderes, e, consequentemente, quanto às operações. […] Os beneficiários da providência de Deus são todos os seres criados, animados e inanimados, racionais ou irracionais. Alguns desses seres, como os anjos e os homens, são agentes morais. (Dagg, 1998, pp. 95,96)
      • Embora a percepção desse cuidado externo que Deus tem para com todos seja maravilhoso per se, os filhos de Deus conseguem enxergar um espectro inatingível àqueles que não foram alcançados pela graça redentora de Cristo: a imanência do Pai. Deus não é um ser inalcançável ou uma energia amorosa, em absoluto, é justamente isso que o evangelho joanino nos confirma logo no início do seu texto (Jo 1:1-5)
        Tendo que escolher um texto bíblico que resuma o drama existencial humano, certamente optaríamos por Gn 3. Ali temos a desobediência do homem que resulta na quebra de seu relacionamento com o Criador, mas também somos apresentados ao protoevangelho (Gn 3:15). Adão (e nele toda a humanidade) feriu a santidade do Pai então seria justo que arcasse com as consequências desse fato, mas Cristo se fez carne, sofreu, morreu e ressuscitou levando sobre si o cálice da justa ira de Deus que seria derramado sobre seus filhos. Percebamos que o sacrifício vicário proporcionou aos filhos de Deus algo maior que a absolvição dos pecados, pois isso significaria a isenção de uma culpa existente. Mas devido a justificação em Cristo nossos pecados foram anulados, nunca existiram e o Pai jamais os viu.
        Por isso o nosso relacionamento pessoal para com Deus, quebrado pela desobediência do primeiro Adão, foi reestabelecido pelo sacrifício do segundo Adão e proporciona aos filhos o livre acesso a presença do Pai.
    • Liberdade relacional do homem para consigo
      • Não se trata de autoajuda, pseudopsicologia, teologias humanistas ou materialistas. Falamos sobre o paradoxo cristão entre reconhecer e aceitar suas limitações e problemas decorrentes da natureza pecaminosa enquanto, simultaneamente, luta contra essas mesmas características. É bem verdade que a salvação em Cristo é uma ação monergista e eficaz. Apenas o próprio Deus, na figura do Filho7 efetuam a salvação e, quando o fazem, é irreversível. Após isso passamos a fase de contínuo aprendizado e maturidade cristã, ou seja, santificação.
        Não é difícil encontrarmos irmãos que não conseguem se perdoar pelos pecados cometidos na vida pregressa e dos deslizes inerentes a natureza pecaminosa que ainda possuímos.  Não somos pecadores porque pecamos, mas pecamos justamente por sermos essencialmente pecadores. Lembremos de Jo 8:3-11 onde Cristo diz a adúltera “nem eu te condeno, vá e não peques mais”, ou seja, não importa o que passou pois já perdoei, apenas siga o seu caminho e não peques mais. Ao nos martirizarmos por algo perdoado pelo próprio filho não significa apenas a não compreensão da profundidade da graça e do perdão cristão, como um total descrédito da obra redentora do Filho; quando isso não torna-se a plena rejeição do fato. Percebamos a seriedade disso.
        Claro que o perdão vicário não nos isenta das consequências naturais de nossos pecados. Um mau profissional deverá ser demitido, assim como um criminoso deve cumprir a justa pena legal.
        Atentemos para o fato da graça transbordante de Deus não ser uma carta de alforria para cultivarmos nossos pecados de estimação. A repulsa e o asco aos atos pecaminosos são resultados inerentes a renovação da mente promovida exclusivamente pelo Espírito Santo (Rm 12:1-2). Caso isso não ocorra, devemos questionar NOSSO PRÓPRIO nível de santificação, quiçá a própria salvação.
    • Liberdade relacional do homem para com o seu próximo.
      • Percebamos a sequência lógica e compulsória decorrente da liberdade relacional: primeiramente Cristo nos alcança e salva, reestabelecendo o nosso relacionamento com o Pai; por causa disso percebemos o pútrido estado em que estávamos, decorrente do pecado, e novas vestes que agora usamos; consequentemente, somos impelidos a levar a mensagem maravilhosa de sua graça transformadora a todos os que nos rodeiam. Antes os grilhões do pecado nos impediam de conhecer e promulgar as boas novas, mas, agora livres dessas cadeias, somos comissionados a consolar nossos próximos.
        Deus se apresenta basicamente de duas formas: milagrosamente e providencialmente. Atenhamo-nos a providência divina, ou quando Deus se utiliza de seus filhos para alcançar alguém. Ananias foi a providência de Deus para com Paulo (At 9:10-18), curando sua cegueira. Paulo foi a providência divina na vida de Pedro, admoestando-o para que compreendesse seu erro (Gl 2:14). As ofertas coletadas em Macedônia e Acaia foram a providência do Pai em resposta ao estado calamitoso da comunidade de Jerusalém (Rm 15:26-27). Parafraseando Gandhi8, sejamos nós a providência divina que queremos ver no mundo

O versículo 3 desmonta a argumentação dos perseguidores e o quarto desmascara não apenas suas intenções como a forma de atuação dos espiões. Mas o grand finale é o versículo 5, onde Paulo nos ensina que devemos ser inflexíveis na defesa dos princípios bíblicos, independentemente da situação, momento, plateia ou qualquer outra variável existente.

Aqui é interessante abrirmos parênteses para um questionamento bastante interessante: porque o mesmo Paulo que defendeu a não circuncisão de Tito, efetuou o respectivo procedimento em Timóteo (At 16:1-3) ? isto não conflita com sua irredutibilidade apresentada em Gl 2:5? NÃO! Não houve erro de decisão, antítese argumentativa, erro de escrita/tradução ou mesmo hipocrisia. A passagem de At 15:1 demonstra claramente que os judaizantes colocaram a obediência a lei mosaica como pré-requisito para a salvação, e apresentou esse princípio na forma da obrigatoriedade da circuncisão. Caso Paulo, Barnabé, Tito, Tiago, Pedro ou João (principalmente um dos três últimos) tivessem cedido, ratificariam não a necessidade da retirada do prepúcio, mas a insuficiência, ineficiência e ineficácia do sacrifício do Mestre.

O contexto de Timóteo era bastante peculiar. Ainda jovem e inexperiente assumiu o pastoreio da igreja de Éfeso. Estas duas características poderiam resultar em sua rejeição por parte daquela igreja – principalmente por parte dos anciãos – mas não chegavam aos pés do “problema” de sua ascendência paterna gentílica. Percebamos que Éfeso poderia rejeitar a pessoa de Timóteo, mas aceitariam o mesmo evangelho desde que pregado por um judeu, já os judaizantes estavam rejeitando o evangelho, independente de quem o pregasse. Além de ter sido enviado por Paulo, Timóteo já tivera sua índole muito bem avalizada por duas testemunhas (At  16:1-3) e esse fato, que parece ser simples aos olhos de leitores ocidentais não judeus e nascidos várias centenas de anos depois (talvez após mais de dois milênios) desta carta, tinha um grande significado. Segundo a Torá o testemunho de duas pessoas era suficiente para condenar ou absolver um réu da acusação de assassinato9 (Dt 19:15-21). Com isso podemos compreender o peso e a responsabilidade dessas testemunhas, inclusive em casos menores. Assim sendo, podemos ver que a circuncisão de Timóteo não era qualquer evidência, complemento ou retificação da salvação em Cristo, mas uma simples conformação com a cultura local a facilitar sua aceitação naquele meio. Aceitação esta que não colidia com qualquer preceito bíblico. Em 1 Co 9:17-23 Paulo defende esse tipo de adaptação não por medo dos perseguidores ou insegurança sobre o evangelho que pregava, mas por amor aos fracos, incautos ou néscios na fé.

Tito foi levado por Paulo como um exemplo de que é possível um gentio ser salvo sem ser circuncidado. Para os judaizantes a presença de um gentio incircunciso na igreja era uma afronta, enquanto para Paulo era a evidência da eficácia da graça e da liberdade do evangelho. Se cedesse à pressão dos judaizantes para circundar Tito, Paulo estaria comprometendo a essência do evangelho. A própria liberdade cristã estaria danificada. Isso seria voltar a escravidão da lei. (Lopes, 2011, p. 85)

A explanação dos versículos 6 e 7a deixo nas mãos de Hendriksen e Stott, visto que o fizeram de uma forma esplêndida e completas.

[…] Dessa forma ele [Paulo] põe em relevo o fato de que os líderes de Jerusalém não tentaram impor quaisquer mudanças no evangelho (da salvação tão-somente pela graça por meio da fé) que ele vinha pregando. Especificamente, eles não aconselharam Paulo a ensinar aos gentios que, além de crerem em Jesus Cristo, deviam deixar-se também circuncidar. É possível que as palavras do apóstolo também queiram dizer que os líderes não o instigaram a impor quaisquer novas regras de conduta sobre os gentios […] A consequência foi que Tiago, cefas e joão, as “colunas” da igreja, reconheceram claramente que o ministério levado adiante por Paulo e Barnabé, com tão consciente respeito à vontade e revelação de Deus, com um propósito tão resoluto e piedoso, com uma energia tão ilimitada, com um amor tão  terno pelas almas e, por fim, mas não menos importante, com tão maravilhosos resultados, só podia ser o produto “da graça que lhes fora dada”, ou seja, aos instrumentos usados pelo Senhor. Eles viram a manifestação maravilhosa do imerecido, porém poderoso e operante favor de Deus. (Hendriksen, 2009, p. 101 e 104)

O resultado negativo se encontra no final do versículo 6: nada me acrescentaram.  Em outras palavras, eles não acharam que o evangelho de Paulo fosse deficiente. Não tentaram acrescentar-lhe a circuncisão nem o embelezaram de alguma outra forma. Eles não disseram a Paulo : “O seu evangelho está correto,  mas falta-lhe uma coisa; é preciso acrescentá-la,” Na verdade, eles nada mudaram. De maneira significativa , Paulo descreve o evangelho que ele expôs aos apóstolos como sendo “O evangelho que prego” (tempo presente). É como se escrevesse: “O evangelho que submeti aos outros apóstolos é o evangelho que continuo pregando. O evangelho que estou pregando atualmente não foi alterado por eles. É o mesmo que eu pregava antes de falar com eles. É o evangelho que preguei a vocês e que vocês aceitaram. Eu nada acrescentei, nada subtraí, não alterei nada. Vocês, gálatas, é que estão abandonando o evangelho; eu não”. Este foi, então, o resultado negativo: eles “Nada me acrescentaram”. (Stott, 2014, p. 44)

Os versículos 7b a 9 mostram-nos não apenas que cada membro do corpo de Cristo tem um chamado específico, mas que também deve haver ordem e unidade em toda a comunidade. Aquela liderança, percebendo as características e o chamado dos membros em questão, e em obediência as claras evidências do Espírito Santo, definiram que Paulo e Barnabé priorizariam os gentios enquanto os demais (Tiago, Pedro e João) olhariam pelos gentios. Faz-se necessário decorrermos sobre dois pontos: Primeiramente, jamais podemos confundir unidade ou homogeneidade do corpo de Cristo com aculturação, alienação ou mesmo idiotice dos membros. Em uma boa orquestra todos os músicos são regidos por um mesmo maestro e, não importa o tipo de instrumento que toquem, sempre todos estão em um mesmo contexto e transmitindo uma única mensagem sonora. Temos os grupos de cordas, madeiras, sopro, percussão e tantas outras que mesmo em sua diferença conseguimos ver e sentir sua unidade e sincronização, pois nem todas tocam ao mesmo tempo ou em mesma intensidade e cabe ao maestro, que conhece toda a partitura e as especificidade não só dos grupos, como de cada músico, reger todos a um mesmo fim. Assim é o corpo de Cristo, orientado pelo Espírito Santo, lendo e executando a palavra de Deus, somos ao mesmo tempo um corpo e um indivíduo guiados a um mesmo fim e proclamando uma mesma mensagem.

O segundo ponto é que a priorização citada anteriormente jamais redundou em exclusividade pois Paulo jamais deixou de ministrar aos judeus (Rm 9:1-5) ou Pedro aos gentios (At 8:9-13).

O fato, porém, de existir um só evangelho não significa que o evangelho não tenha endereçamentos distintos. Enquanto Paulo e Barnabé são enviados aos gentios, os apóstolos são enviados ao Judeus. o mesmo evangelho deve ser pregado a gentios e judeus. A mensagem é a mesma, mas a forma é diferente. O conteúdo é o mesmo, mas a abordagem é diferente. A teologia é a mesma, mas o método é diferente. (Lopes, 2011, p. 90)

Faz-se necessário um disclaimer Sobre a tradução do versículo 7 presente na Almeida Revista e Corrigida: “Antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me estava confiado, como a Pedro o da Circuncisão”. Pode haver quem defenda a existências de dois evangelhos diferentes após ler essa passagem; o paulino totalmente direcionado aos gentios; enquanto o petrino foca nos judeus. Isso está deverás errado pois o evangelho é uno, pétreo, basilar e O princípio a ser seguido. Apenas a forma de apresentação pode ser moldada ou tornar-se-á vítima de anacronismos. Evidenciamos aqui a seriedade desta tradução que, em nada, pode ser abalada por causa deste pequeno lapso, mas é interessante termos este fato em mente.

Mas qual o porquê de sermos exaustivos e pleonásticos quanto a defesa da unidade do evangelho, unidade entre os apóstolos e a autoridade paulina? Talvez os trechos abaixo, retiradas da obra “O Anticristo” de Nietzche, forneçam-nos um vislumbre da quebra desse tripé.

[…] A própria palavra “Cristianismo” é já um equívoco – no fundo só existiu um cristão, e esse morreu na cruz. O “Evangelho” morreu na cruz. Aquilo a que desde então se chamou “evangelho” era o contrário do que o Cristo havia vivido: uma “má nova”, um Dysangelium. É falso até à estupide o ver numa “fé”, neste caso a fé na salvação pro Cristo, o sinal distintivo do cristão; […] De fato não houve nunca cristão absolutamente algum. O “cristão,  o que de há dois mil anos até hoje é chamado cristão, não é outra coisa senão uma ilusão psicológica. Se o encararmos mais de perto, vemos que, apesar da “fé”, só reinava nele os instintos – e que instintos!
[…]
A fé, enquanto imperativa, e o veto contra a ciência; in praxi, a mentira a todo o custo…Paulo compreendeu que a mentira – que a fé – era necessária; e a Igreja, mais tarde compreendeu Paulo. Esse Deus que Paulo inventou , um Deus que “reduz a nada” a “sabedoria do mundo” (num sentido mais estrito, os dois maiores adversários de toda a superstição, a filologia e a medicina), não é uma realidade, senão uma decisão atrevida de Paulo em chamar “Deus” à sua própria vontade, thorá, isso é, o que é essencialmente judaico. Paulo chegou a reduzir a nada a sabedoria do mundo: os seus inimigos são os bons filólogos e médicos da escola alenxandrina: a eles faz a guerra. Efetivamente não se pode ser filólogo e médico sem ser ao mesmo tempo anticristo. E que como filólogo se olha através dos “santos livros”, como médico através da decrepitude  fisiológica do cristão típico. O médico diz: “incurável”; o filólogo: “charlatanismo”… (Nietzsche, 2010, pp. 73,74,85,86)

Entendemos essa obra como uma releitura do ataque Judaizante contra Paulo, pensamento esse coroado quando encontramos nela a seguinte frase “Deus, qualem Paulos creavit, dei negatio” ou “O Deus, tal como Paulo o criou, é a negação de Deus.

O versículo 10 leva-nos a relembrar dos conceitos trabalhados algumas linhas acima: Ortodoxia X Ortopraxia. Finda a discussão teológica, formada a estratégia de ensino e evangelização, agora, é necessário pôr as mãos na massa. Devemos cuidar da saúde não apenas espiritual de nossos irmãos, como também da psicológica e material.

O evangelho da graça é integral. Ele provê salvação para a alma e redenção para o corpo. É transcendental e ao mesmo tempo assistencial. Não existe conflito entre evangelização e ação social. Fé e obra não se excluem: complementam-se.
[…]
Evangelização sem ação social gera um pietismo alienado; ação social sem evangelização produz um assistencialismo humanista. Ao longo dos séculos o evangelho de Cristo tem sido o vetor inspirador para as maiores obras sociais do mundo, criando hospitais, escolas, asilos e dezenas de instituições que cuidam do ser humano de forma integral. (Lopes, 2011, pp. 91,92)

Versículos 11 a 14

A visita de Paulo a Jerusalém estabeleceu a grande verdade unificadora de que somos salvos pela fé em Cristo; nada mais, nada além. Agora ele muda o foco; em vez de se colocar ao lado de Pedro em Jerusalém, capital de Israel, coloca-se contra ele em Antioquia, uma cidade gentia. Nas duas ocasiões, o que importa para Paulo, acima de qualquer coisa, é o evangelho – evangelho que , neste trecho da carta, ele resume pela primeira vez como “justificação pela fé”. (Keller, 2015, p. 53)

Essa é uma das passagens mais constrangedoras da Bíblia e uma das mais polêmicas dessa carta. Vemos aqui Pedro e Paulo, os dois maiores líderes da igreja, num profundo conflito. (Lopes, 2011, p. 95)

[..] a controvérsia entre Pedro e Paulo tem se repetido em debates eclesiásticos contemporâneos, especialmente no que se refere à comunhão internacional. O cenário é diferente. Não mais a Síria nem a Palestina, mas outras partes do mundo, sem excluir o Brasil. Os participantes também são diferentes. Eles não são apóstolos do primeiro século, mas gente da igreja do século XX. O campo de batalha também é diferente, pois não é mais a questão da circuncisão mosaica, mas assuntos secundários tais como a confirmação, a forma de batismo ou o ministério da igreja. Mas a questão fundamental é exatamente a mesma, isto é: em que base os crentes cristãos podem desfrutar a comunhão uns com os outros ou afastar-se uns dos outros? A resposta a estas perguntas encontra-se no evangelho. (Stott, 2014, pp. 54,55)

Confirmando o que Lopes nos disse nas linhas acima, o versículo onze já traz a primeira controvérsia: Quando Pedro foi à Antioquia? Há aqui duas vertentes interessantes.

  • Hendriksen defende que o fato ocorreu após o Concílio de Jerusalém e antes da segunda viagem missionária de Paulo. Dessa forma, Pedro não só estava ciente do veredicto proferido como fora bastante eloquente e assertivo na defesa da justificação exclusivamente pela fé (At 15:7). Então, por que teria agido assim quando partilhava a mesa com os gentios? Talvez por puro medo sobre como seria avaliado por aquele grupo de Judaizantes. Lembremos que este é o mesmo Pedro que já havia negado Jesus Cristo por três vezes (Jo 18:15-27)
    • É bem provável que o episódio em que Pedro de se envolveu tenha ocorrido durante o intervalo entre a Conferência de Jerusalém (At 15 1-29) e o início da segunda viagem missionária (15.40ss). Sabendo à luz do livro de Atos  (15:2,30-39) que foi nessa época que Paulo e Barnabé se detiveram em algum tempo em Antioquia da Síria. E aqui em Gálatas a controvérsia suscitada entre Paulo e Pedro segue imediatamente ao Concílio (inclusive a entrevista Privativa). (Hendriksen, 2009, p. 110)
  • Segundo Lopes e Calvino tal situação ocorrera antes do Concílio de Jerusalém deliberar sobre a desnecessidade das imposições cerimoniais aos gentios. Baseiam-se nisso justamente pelo contrassenso que seria Pedro, após expressar-se como o fizera em Jerusalém e, logo depois, agir de forma paradoxal.
    • Concordamos com Calvino que esta visita precedeu ao Concílio de Jerusalém, porque não faria sentido Pedro ter agido de forma tão instável depois da decisão tomada pelos apóstolos e presbíteros com respeito à aceitação dos gentios na comunidade cristã sem a necessidade de observar os preceitos judaicos. (Lopes, 2011, p. 98)
    • Aquele que examinar atentamente todas as circunstâncias concordará comigo, espero, crendo que isso aconteceu antes de os apóstolos decidirem que os gentios não receberiam qualquer imposição a respeito da observância de cerimoniais [At 15:28]; pois uma vez aprovada a decisão, Pedro não teria sentido nenhum temor de  ofender a Tiago ou seus enviados. (Calvino, 2013)

Talvez algum leitor incauto utilize essas duas teorias para analisar o grau de culpabilidade ou de responsabilidade petrina, onde a aplicação de Hendriksen diria que o apóstolo havia merecido a repreensão da forma como ocorreu por ter ido de encontro a decisão conciliar. Os seguidores de Lopes e Calvino poderão pensar que Paulo fora muito duro com Pedro, visto que este – embora errado – poderia ter vacilado devido a mera ignorância10. Contudo, o momento em que Pedro estava em Antioquia quando ocorreu o respectivo evento, além de não poder ser usado como métrica qualitativa para mensurar o seu erro, demonstra o exato oposto disso. Independentemente de sua presença naquela cidade ter ocorrido antes ou depois do Concílio de Jerusalém, Pedro já deveria ter pleno e inabalável conhecimento e convicção da salvação graciosa em Cristo, e exclusivamente nEle. Nisso convergem Hendriksen, Stott, Lopes, Calvino e tantos outros. Primeiramente, era um absurdo alguém que além de passar três anos em contato direto com o redentor e ser um dos discípulos mais próximos, a ponto de ter sido chamado pelo Mestre para passar consigo os momentos finais (Mc 14:31-37), não ter compreendido nada acerca da justificação exclusivamente pela fé. Em segundo lugar, basta lembrarmos de At 10 e percebermos que Pedro havia tido uma revelação em Jope e, na casa de Cornélio, confessado justamente que Deus o havia mostrado que não deveria chamar de imundo todos os que haviam sido purificados em Cristo (At 10:28). Dessa forma, Pedro merece toda a admoestação paulina devido a sua atitude condenável.

O versículo doze nos traz duas informações interessantes: a chegada de um grupo de judaizantes da parte de Tiago e o medo petrino que culminou na fuga do apóstolo. Stott afirma que esse grupo apenas dizia ter a autoridade dada por Tiago e começaram a pregar como se isso fosse verdade, mas vemos em At 15:24 que se tratava de uma mentira deslavada, pois Tiago afirma jamais ter lhes dado tamanha autoridade. Ainda que estivessem falando a verdade, Pedro jamais poderia ter-se deixado subjugar por esse grupo, antes, deveria refutar não apenas estes, mas o próprio Tiago se fosse necessário.

Todo esse imbróglio não poderia ter ocorrido em momento mais irônico: a Festa Ágape ou Festa do Amor. Após a instituição da Ceia pelo próprio Jesus, de tempos em tempos – em geral semanalmente – todos os cristãos da comunidade se reuniam em um grande banquete. Naquele momento não havia divisão social, econômica, eclesiástica etc., mas apenas a comunhão unitária cuja ceia era o ápice e encerramento da festividade. Para muitos pobres e ex-escravos esta era a única refeição digna que tinham acesso. O sectarismo judaizante e a atitude de Pedro demonstram que a deturpação dessa celebração não era exclusividade da igreja de Corinto11, que havia transformado a ceia do Senhor em um grande evento social regadas a bebedeira e glutonaria (1 Cor 11:20-22), mau uso dos Dons espirituais (1 Cor capítulos 12 a 14), separação social e econômica, etc. lembremos que o grupo judaizante estava usando indevidamente o nome do apóstolo Tiago (um dos pilares, conforme a eles próprios classificavam) para falsamente endossar sua autoridade e ensinamentos. Agora, vendo a atitude de Pedro, certamente a tomariam como prova para proclamá-lo mais um adepto daquilo que estavam espalhando como verdades evangélicas, afinal, era justamente isso que o ato petrino deixava transparecer: “Estou me retirando do convívio dos gentios, em plena Festa Ágape, para não ser maculado com sua impureza”.

Certamente que Paulo se refere aqui às refeições de comunhão ou Ágape (“Festa do Amor”)  dos cristãos primitivos. A comida que seria consumida em casa era trazida ao lugar de reunião da congregação. Parece que a Ceia do Senhor, originalmente, era celebrada no encerramento de tais confraternizações. Se essas reuniões eram cultos regulares da igreja ou reuniões congregacionais extemporâneas, não está muito claro e não importa para o presente propósito. Os abusos que tais reuniões poderiam causar estão indicados em 1 Coríntios 11:17-34. Em Corinto havia segregação de irmãos segundo as riquezas, os ricos se separavam dos pobres; em Antioquia, a segregação que ameaçava era de caráter racial, os cristãos judeus separavam-se dos gentios irmãos na fé […]. (Hendriksen, 2009, pp. 110,111)

O versículo treze demonstra o poder destrutivo que a má ação de um líder pode ocasionar. Todos os judeus à mesa, inclusive Barnabé, foram infectados pela hipocrisia petrina e simplesmente fugiram. Vejamos o que Lopes diz sobre isso.

Um líder nunca é neutro. Liderança é sobretudo influência. Um líder influencia sempre, para o bem ou para o mal. Pedro, por ser um líder, acabou por exercer uma péssima influência sobre os demais judeus, inclusive sobre o próprio Barnabé, um dos esteios da obra missionária entre os gentios. Pedro acabou criando uma fissura dentro da igreja de Antioquia. Em vez de trabalhar em prol da unidade e da edificação da igreja, laborou para a divisão e enfraquecimento. (Lopes, 2011, p. 100)

Não há outra palavra para expressar a atitude petrina senão hipocrisia, tanto que o próprio Paulo usa exatamente esse termo em grego: sunupekrithesan. Analisando todos esses pontos somos capazes de compreender o porquê de Paulo não optar por uma repreensão em particular a Pedro, mas fazê-la de forma pública e dura. A gravidade da situação era tamanha que, agindo de forma mais branda, Paulo poderia pôr a perder não apenas o trabalho de evangelização entre os gentios como também entre os judeus, pois o princípio da justificação pela fé estaria comprometido. Em contrapartida, a reação paulina o permitiu reafirmar:

  • Sua autoridade apostólica, visto que repreendera em tom de igualdade um dos apóstolos mais quistos de toda a cristandade e, segundo defendiam os judaizantes, seu superior. Além disso, deixou bastante claro que, se necessário, repreenderia o próprio Tiago quando o fez com seus possíveis delegados.
  • Reafirmou a soberania da doutrina da justificação exclusivamente pela fé na obra redentora de Cristo em detrimento da lei para este fim.
  • A necessária e consequente expressão exterior e material dos filhos de Deus para com os seus próximos, resultante da transformação interior e – até certo ponto – abstrata causada pelo novo nascimento em Jesus Cristo. é disso que trata-se Tg 2:16 e Gl 5:12-13.
  • A soberania do evangelho cristocêntrico sobre qualquer tipo de status eclesiástico, dogma, pensamento, estirpe etc.

Além disso, nos ponhamos na situação daqueles gentios que, momentos antes desfrutavam de comunhão com o apóstolo e demais judeus cristãos, mas, quando da chegada dos seus “perseguidores” perceberam-se sozinhos. Onde estavam os que pregavam a justificação pela fé apenas? A unidade em Cristo? A perseverança na fé em Cristo? Ou tantas outras verdades evangelicais? Percebamos o peso do que Tiago escreve em sua carta informando que a fé sem obras é morta (Tg 2:16)12. Agimos de forma semelhante quando nos dobramos ao sectarismo, classicismo, racismo e uma infinidade de classificações que insistem em criar verdadeiras castas eclesiásticas. Este tipo de atitude nem sempre é tão explicita como ocorreu em Antioquia, ou seja, nem sempre é necessário que simplesmente evitemos o convívio com determinados irmãos ou, ainda que discretamente, os excluamos de nosso convívio social. Quando simplesmente nos rendemos ao mero formalismo eclesiástico onde nosso convívio não resulte em um vínculo real e transformador com a comunidade a qual estamos inseridos, perde-se o princípio da comunhão. Assim sendo, a Ceia passa a ser uma mera refeição, o batismo um banho e a reunião de adoração um ajuntamento de pessoas para um evento qualquer, ainda que belo.

O versículo quatorze inicia de fato o sermão paulino e é interessante percebermos que os argumentos do apóstolo e dos judaizantes possuem o mesmo epicentro, mas alcançam resultados diametralmente opostos. Há convergência quanto a ideia que Israel fora o povo escolhido por Deus e destinatário da lei mosaica. A divergência ocorre porque os judaizantes criam – justamente devido aos dois pontos supracitados – que os gentios precisavam se tornar judeus para poderem ser verdadeiramente salvos em Cristo e, consequentemente, chamados de filhos de Deus mesmos após terem reconhecido o Messias como único e exclusivo salvador. Paulo explicita justamente o contrário afirmando que todo o rito sacrificial e legal mosaico é uma prefiguração daquele que iria consumar esse sistema em si. Cristo é essa pessoa e, portanto, nada mais é necessário além da crença nEle para que a salvação seja alcançada. Assim sendo – segundo Paulo – os judaizantes possuem total liberdade para continuarem seguindo a lei mosaica, visto que são os destinatários imediatos, mas cientes ela não é mais pré-requisito à salvação. Os gentios jamais foram – e nós, consequentemente – os destinatários diretos da lei mosaica e foram abraçados pela Graça de Deus revelada em Cristo, estando assim duplamente desobrigados a fazerem-se Judeus para alcançarem a salvação.

[…] o significado dessas palavras de Paulo é: “Nós, que parecemos exceder aos outros que, pelo benefício da aliança, temos sempre desfrutado do privilégio de estar perto de Deus, não encontramos qualquer outra maneira de obter a salvação, exceto por meio do cere em Cristo. Por que, então devemos estabelecer outra maneira para os gentios? Porque se a lei fosse necessária ou proveitosa à salvação daqueles que cumpriam seus preceitos, ela o teria sido especialmente para nós, a quem foi outorgada. Mas, se abandonamos e nos voltamos para Cristo, não devemos, de modo algum, exigir dos gentios subordinação a ela.
[…]
Quando Paulo disse somos judeus por natureza, o significado o significado dessa palavra era: “Nascemos santos; com certeza, não devido ao nosso próprio mérito, mas porque Deus nos escolheu para sermos o seu povo. Nós que éramos por natureza judeus, o que fizemos? Cremos em Cristo. Qual foi o propósito de crermos? Para quer fôssemos justificados mediante a fé em Cristo. Por qual razão? Porque sabemos que um homem não é justificado pelas obras da lei.” Partindo da natureza e do efeito da fé, Paulo argumenta que os Judeus não são justificados pela lei, nem mesmo no menor grau. Pois, assim como eles, querendo estabelecer a sua própria justiça, não se submeteram à de Deus [Rm 10:3], assim também, do ponto de vista contrário, os que creem em cristo confessam que são pecadores e, assim, renunciam a justificação pelas obras. (Calvino, 2013).

Keller nos traz um ponto de vista interessante mostrando Pedro e, consequentemente, os judaizantes, como nacionalistas. Concordamos parcialmente com essa classificação devido a sua abrangência, visto que há diversas formas de nacionalismos13 e presumimos que a melhor subclassificação seria o Nacionalismo Territorial, onde há uma idealização supremacista da cidadania e/ou do território. Flertamos com isso durante a ditadura militar onde o governo criou o famigerado bordão “Brasil, ame-o ou deixe-o” e a marcha “Pra Frente Brasil”14 usada na copa de 70. Os Judaizantes mentiram sobre sua delegação de autoridade, distorceram absurdamente os ensinamentos evangelicais para que estes embasassem sua doutrina, racharam a comunhão entre os gentios e judeus criando dois grupos excludentes entre si e colocaram-se como baluartes do cristianismo mostrando que o povo devia ter eles (ou seu grupo étnico) como ideal para alcançar a salvação. Observando bem, e talvez extrapolando um pouco as variáveis, podemos ver o gérmen de um sistema totalitarista15. Para embasar sua ideologia supremacista, Hitler promoveu um grande sincretismo religioso (cristianismo incluso), absorveu a parte equivocada dos ensinos de diversos pensadores como Lutero e Nietzche16, deturpou símbolos de poder, como a suástica que em sua origem budista representava felicidade, boa sorte etc., e seccionou todo o mundo em dois grandes grupos: Aliados X Eixo.

E o que isto tem de relevante? Deus escolheu Israel como o povo que traria luz ao mundo, mas vemos em todo o Velho Testamento que eles confundiram isso com “serem superiores” aos demais povos. Cristo se fez carne para demonstrar que somos todos igualmente pecadores, nada mais, nada menos, e nós novamente passamos a nos dividir em grupos. Criamos hierarquias para seres humanos, pecados e até demônios quando nenhuma das coisas ocorrem na bíblia17. Somos igualmente pecadores e dependentes da Graça de Deus que nos alcança exclusivamente por meio do sacrifício vicário de Cristo e nos sela definitivamente com o Espírito Santo. Qualquer variável que tente alterar essa equação seja anátema, pois redundará em um resultado que não é a verdadeira salvação. Ansiosos em extirpar Cristo e seus discípulos de seu meio, os Fariseus quebraram todas as regras jurídicas judaicas para incriminá-lo, ou seja, efetuaram o mesmo crime do qual eram acusadores, conforme exibido no “ANEXO B – O Julgamento de Jesus: Ilegalidades Processuais nos Direitos Romano e Hebreu” onde Mariana Hamm esclarece não apenas os abusos farisaicos como a fraqueza romana, na pessoa de Pôncio Pilatos.

Versículos 15 a 21

Ao justificar o pecador, Deus pode ser considerado como o juiz que preside um tribunal de justiça. O prisioneiro está sentado nos banco dos réus. O juiz absolve o prisioneiro, declarando-o “livre de culpa e justo”. O ex-prisioneiro é agora um homem livre. A história, porém, não termina aí. O juiz então se volta para esse homem livre e o adota como seu filho e ainda lhe concede seu próprio Espírito (Rm 8:15; Gl 4:5,6). Aqui é onde a justificação e santificação se tocam, por assim dizer; pois a pessoa justificada, por gratidão e através do poder capacitador do Espírito, começa a lutar contra seus próprios pecados e passa a proliferar-se em boas obras para a glória de seu Juiz e Pai. As boas obras jamais justificam alguém, porém nenhuma pessoa, verdadeiramente justificada, quer viver sem elas (Ef 2:8-10).  (Hendriksen, 2009, p. 120)

Antes de analisarmos esse bloco é essencial compreendermos um pouco mais sobre a lei judaica e quais dos seus pontos podem ser comunicados a nós. Geralmente cometemos o erro de tratar a Torah como um grande bloco monolítico de regras que devem ser totalmente absorvidos ou rejeitados e dessa forma vemos apenas um conjunto de mandamentos escritos há milênios e, consequentemente, anacrônicos. Consequentemente, passamos ao largo dos princípios ali apresentados. Esse era exatamente o embate que Paulo estava tendo com os judaizantes em questão.

No livro Lei e Graça o Dr. Mauro Meister mostrou perfeitamente que a lei é formada por três categorias:

  • LEI CIVIL: […] vemos como Deus deu ao povo uma definição de seus deveres e, por consequência, os direitos do semelhante, como cidadãos de uma sociedade teocrática. Como consequência de delitos e contravenções, Deus estabeleceu os tipos de penalidade aplicáveis a várias dessas situações. (Meister, 2016, p. 46)
  • LEI CERIMONIAL: […] apresenta as formas externas pelas quais os crentes, durante o período de vida da nação israelita, poderiam demonstrar a sua fé de maneira solene no culto público e a sua santidade na vida privada. […] tinha a função de distinguir o povo escolhido por Deus para entrega da lei escrita ao mundo e, por outro lado, ensiná-lo a aguardar a vinda do messias. (Meister, 2016, p. 49)
  • LEI MORAL:  Em geral, moral é considerada o conjunto de regras que se aplicam de maneira absoluta, independente de tempo ou lugar. (Meister, 2016, p. 58)
  • asdasd
LEIDESCRIÇÃO
CIVIL ou JUDICIALNão é obrigatório para o governo cristão, mas é modelo para o uso civil, encorajando o bom governo e a paz
CERIMONIALDirigida aos judeus para fé em seu messias. Encontra-se agora cumprida em Cristo.
MORALEssa é permanente e totalmente aplicável a todos os cristãos.
Lei e Graça – Meister, Mauro, Pag 43

As Leis Civil e Cerimonial são, respectivamente, aplicações direta e simbólica da Lei Moral. Além disso, o que chamamos simplesmente de LEI de forma ampla e abstrata, pode ser percebido pelos Judeus como Mandados, Preceitos, estatutos e Lei18.

Agora que vemos a lei como um código legal composto por, pelo menos, três partes bem equilibradas, conseguimos compreender toda a ironia paulina dispensada principalmente aos judaizantes, mas também a Pedro e Barnabé. Aqueles judeus tinham a obrigação de conhecer todo o arcabouço jurídico de Israel e que este não era suficiente para salvá-los. Eles que são judeus e observadores da lei, e não pecadores como aqueles gentios, precisavam de Cristo para sua salvação; como poderiam querer que os gentios seguissem as regras judaicas para alcançarem o mesmo objetivo? Percebamos essa absurda antítese:” Para salvarem-se vocês – gentios –  devem seguir a lei que não foi suficiente para salvar aqueles que são filhos da promessa – os judeus”.

Na legislação brasileira, qualquer trabalhador que sem acerto ou consentimento prévio falte o dia de trabalho poderá sofrer as sanções legais discriminadas no acordo que rege seu contrato. O empregador ao executar a sanção legal aplicará nada mais que justiça e, caso abone o respectivo empregado por esta falta, será misericordioso. Por outro lado, caso este empregado possua uma declaração médica atestando que não poderia ter comparecido ao expediente, sua falta será justificada e a sansão legal que o empregador poderia – por direito – impor, torna-se nula; a legislação fora satisfeita.

Claro que este é um exemplo deveras simples, mas percebamos como é análogo aos conceitos de Lei, Justiça, Justificação e Misericórdia. Assim também Paulo iniciou o versículo 16, utilizando linguagem jurídica para inserir pela primeira vez o termo “JUSTIFICADO” e deixando bastante claro que todos – judeus e gentios – estavam igualmente condenados pela lei por estarem em falta com o Pai. Os judaizantes pregavam uma dupla insuficiência do sacrifício de Cristo, tornando-o ineficaz ao não resolver imediatamente a questão da salvação e ineficiente por precisar ser complementado por ações de terceiros e, o pior, por humanos pecadores.

Por “lei” entende-se a soma total dos mandamentos de Deus, e por “obras da lei” os atos praticados em obediência a ela. Os judeus supunham que podiam ser justificados desse modo, como também os judaizantes, que professavam ter a fé em Jesus mas queriam que todos seguissem igualmente a Moisés. Sua posição era esta: “A única maneira de ser justificado é através de trabalho duro. É preciso lutar. A ‘obra’ são as ‘obras da lei’. Ou seja, é preciso fazer tudo que a lei ordena e evitar tudo o que a lei proíbe.” (Stott, 2014, p. 59)

Nunca ninguém foi justificado pelas obras da lei, simplesmente porque ninguém jamais conseguiu obedecer à lei de maneira perfeita. Uma obediência restrita às exigências das obras da lei é uma coisa além do nosso alcance. Podemos guardar algumas das exigências da lei externamente, mas nenhum homem, exceto Jesus Cristo, jamais as cumpriu todas. (Stott, 2014, pp. 59,60)

A fé, então, é o ponto decisivo pelo qual a condição do pecador é determinada. Segundo o método da Graça de Deus, todos os benefícios advindos da satisfação da lei, obtida por Cristo, são transferidas ao pecador tão logo ele crê; a fé, portanto, serve como se fosse uma perfeita obediência pessoal à lei. Crendo em Cristo, o pecador é tratado como se tivesse ele mesmo cumprido uma perfeita obediência à lei. Este é o significado das passagens que dizem que a fé nos é imputada com justiça. A justiça é imputada não por causa de algum mérito que a fé possua, mas porque ela é aquele elemento que o evangelho reconhece no pecador como algo que o habilita a receber a plena satisfação da lei que Cristo realizou. Quando se diz que a fé é imputada para justiça, vemos que a obediência e os sofrimentos de Cristo (aos quais a fé se agarra), estão conectados à fé, sendo o fundamento meritório para a aceitação da mesma. (Dagg, 1998, p. 216)

O versículo 16 oferece a dualidade “obras da lei” X “Obras de Cristo” e por isso precisamos ser exaustivos em sua analise exibindo o seccionamento desse versículo em três declarações feitas com Stott:

  • DECLARAÇÃO GERAL (16a): O homem não é justificado por obras da lei. QUALQUER homem ou mulher e, por inferência TODOS os seres humanos estão caídos e destituídos da glória de Deus (Rm 3:23) e não há nada que possa fazer para reconciliar-se com Ele. Essa verdade absoluta alcança judeus e gentios, colocando-os em grau de equidade pecaminosa.
  • DECLARAÇÃO PESSOAL (16b): Temos crido em Cristo Jesus para que fôssemos justificados pela fé em Cristo. Nossa fé não é apenas intelectual, baseada em um roteiro descrito em qualquer tipo pergaminho, livro, manual ou mesmo repassado de forma oral. A razão e a lógica conseguem nos guiar até um certo ponto e fazer-nos arranhar a superfície da verdade (lembremos da revelação geral de Deus, disponível a todos), mas a verdadeira conversão traz consigo uma experiência pessoal com o nosso Criador. Essa experiência está além daquilo que a lei pode nos entregar.
  • DECLARAÇÃO UNIVERSAL (16c): Por obras da lei ninguém será justificado. Não importa nossa classe social, cor, raça escolaridade, credo ou qualquer outra característica, nada será capaz de nos salvar. Toda a carne, a humanidade sem exceção estão predestinada a perdição se não for justificada por Cristo.

Os judaizantes não apenas atacavam a autoridade paulina como acusavam seus ensinos de heréticos, promotores de pecado. Os versículos 17 e 18 refutam esse ataque ao seguir a seguinte linha de raciocínio: “Se tentamos nos justificar em Cristo e não conseguimos então continuamos no pecado e todo o ensinamento de Cristo fora pura blasfêmia.” Sendo essa afirmação verdadeira, os “santos” e “puros” judaizantes também estariam incorrendo no mesmo pecado pois não negavam a santidade de Cristo “apenas” defendiam que a obra de Cristo deveria ser acompanhada da execução das leis judaicas. Em outras palavras, sendo os seus ensinamentos de Paulo pura heresia, Cristo seria o promotor do pecado e os judaizantes também estariam entre seus seguidores, assim como os gentios.

Se os judaizantes estão no caminho certo, ao sustentar que nós, ao buscarmos a justificação unicamente em Cristo, assim negligenciamos a lei e acabamos nos tornando rudes pecadores tais como os gentios, diríamos então que Cristo, que nos ensinou essa doutrina é promotor do pecado? (Hendriksen, 2009, p. 123)

O versículo 18 resolve o questionamento efetuado no versículo 17 declarando que as barreiras derrubadas se referem a Lei Cerimonial e esta apontava para aquele que é perfeito, que haveria de vir e fora totalmente cumprida em Cristo, tornando-se a partir de então inócua. Segundo Paulo, a tentativa de reconstrução daquilo que derrubara, ou seja, a “parede da lei cerimonial”, não transformara Cristo em pecador, mas ele próprio. Com isso ele dizia aos judaizantes que a Lei Cerimonial a qual obrigavam os gentios a participarem para poder concluir o “processo de salvação”, era justamente a reconstrução da barreira que impedir-lhes-ia de perceber e prosseguir à nova aliança da Graça de Cristo.

Então o que a lei per si produz no homem? MORTE! Pela lei conseguimos apenas enxergar nossa incapacidade diante de um Deus soberano em trilhar o caminho para alcança-lo, logo, um caminho pra perdição. Isso não significa que ela é má, mas insuficiente para a salvação. Foi isso que Paulo afirmou ao declarar que morreu para a lei justamente pela sua incapacidade de vivificar o homem, mas aqueles que são remidos pelo sangue do cordeiro não são mais alcançados pela morte decretada pela lei por terem sido – pela fé – crucificados com Cristo e vivificados com Ele, pelo Seu amor, pelo Seu sacrifício e ressurreição. Os versículos 19 e 20 abrem ossos olhos ao amo de Deus.

Fui crucificado com Cristo explica como nós, que estamos mortos para a lei, vivemos para Deus. […] Portanto, crucificados com Ele, estamos livres de toda a maldição e culpa provenientes da lei. Aquele que despreza esse livramento anula a cruz de Cristo. Lembremo-nos, porém, de que somos libertos do jugo da lei somente por nos tornarmos um com Cristo […]. (Calvino, 2013)

Após toda essa explanação parece lógico renunciar à graça de Cristo? É exatamente esse o questionamento de Paulo no versículo 21. Continuar pregando justificação pela lei é virar as costas para o sacrifício vicário de Cristo; buscar a Deus de qualquer outra forma que não o sacrifício e ressureição do Messias não é apenas uma mera perda de tempo, é chamá-lo de tolo por ter se entregado por nós.

Sob o risco de nos tornamos maçantes gostaríamos de reforçar a essencialidade de compreendermos o significado da justificação e da insubstituibilidade da cruz do calvário. Façamos um exercício mental utilizando três situações descritas na bíblia.

  • Leiamos At 5 e o fim de Ananias e Safira. É certo que este casal era culpado, mas a morte imediata não forma uma pena dura demais para uma simples mentira? Como reagiríamos se não tivesse ocorrido com dois personagens tão distantes de nós?
  • Vejamos também Lv 10:1-3 e analisemos o erro de Nadabe e Abiú. Este também não teria sido um exagero? Uma dura reprimenda não teria sido suficiente para ensinar a seriedade de sua função e a irresponsabilidade de seus atos não apenas para eles dois como para todo o povo de Israel?

Jamais esqueçamo-nos que a santidade de Deus é absoluta e não admite qualquer traço de pecado. Hoje estamos vivos exclusivamente pela misericórdia do Senhor que se renova diariamente (Lm 3:22-23) e se Ele decidir derramar sobre nós justiça – como fez nos exemplos acima – todos seremos consumidos devido a nossa essência pecaminosa e, ainda assim, Ele não terá exagerado a dose, apenas sido justo. Caso ainda não estejamos convencidos dessa realidade, basta lembrar de Uzá em 1 Cr 13:7-11 e, antes de nos abismarmos, leiamos Nm 4:15 e a forte explanação feita por Sproul:

No entanto ele a tocou. Estendeu a mão e segurou-a firmemente para que não caísse. Um ato santo de heroísmo? Não! Foi uma atitude de arrogância, um pecado presunçoso. Uzá supôs que sua mão era menos suja do que a terra. Contudo, não era o chão nem o barro que profanariam a arca; era o toque humano. A terra é uma criatura obediente. Faz tudo o que Deus ordena. Produz frutos na estação certa. Obedece às leis da natureza que ele estabeleceu. Quando a temperatura cai a certo ponto, o chão congela. Quando se adiciona água ao pó, obtém-se barro, assim como o Senhor planejou. A terra não comete traição cósmica. Nada que diz respeito a ela é sujo.
O que Deus não queria era que seu trono santo fosse tocado por aquele que estava contaminado pelo mau, aquele que se rebelara contra ele, aquele que, com sua revolta ímpia, arruinou toda a criação e levou a terra, o céu e as águas dos mares a gemer e suportar angústias, aguardando o dia da redenção: o homem. A proibição dizia respeito aos seres humanos.
Uzá não era inocente. Ele não foi castigado sem aviso. A punição que sofreu foi consequência de haver violado a lei. O julgamento divino não foi um capricho, não havia nada de arbitrário na atitude de Deus naquele momento. Entretanto, havia algo fora do comum. A rapidez e a finalidade da execução nos surpreendem, nos choca e nos deixa indignado. Há um motivo para indignação e irritação que sentimos com relação a história de Uzá e ao episódio de Nadabe e Abiú. Temos dificuldade para digerir esses fatos porque não compreendemos quatro conceitos bíblicos de importância vital: santidade, justiça, pecado e graça. Não sabemos o que significa ser santo. Não entendemos o que é justiça, o que é o pecado e o que é a graça. (Sproul, 2008, pp. 104, 105)

Deus nem sempre age com justiça. Às vezes age com misericórdia. A misericórdia não é justiça nem injustiça. A injustiça viola a retidão. A misericórdia manifesta bondade e graça, mas não viola a retidão. Podemos ver não-justiça em Deus, o que é misericórdia, porém, nunca vemos injustiça nele. (Sproul, 2008, p. 107)


Notas de Rodapé

  1. Embora precisemos deixar bastante claro que há bons defensores e argumentos apontando para a terceira viagem missionária. ↩︎
  2. “A Carta aos Gálatas foi escrita antes do Concílio de Jerusalém, e não depois dele. […] Se a Carta aos Gálatas tivesse sido escrita depois do Concílio de Jerisalém, bastaria a Paulo mostrar às igrejas a decisão dos presbíteros e apóstolos de Jerusalém isentando os gentios do rito da circuncisão, e ele já teria tapado a boca dos insolentes judaizantes. (Lopes, 2011, p. 81)↩︎
  3. “É ilógico imaginar que pedro teria usado tal dissimulação, se a controvérsia houvesse sido resolvida e o decreto apostólico publicado. Mas nesta passagem, Paulo escreve que viera a Jerusalém e, somente depois acrescenta que repreendera a Pedro por causa de um ato de dissimulação, um ato que, com certeza, Pedro não teria cometido, exceto em questões duvidosas” (Calvino, 2013) ↩︎
  4. Ainda há uma discussão terciária sobre se os quatorze anos devem ser contados da data de conversão de Paulo ou de sua primeira visita a Jerusalém. Stott e Calvino defendem a primeira hipótese enquanto Hendriksen é adepto da segunda. A Bíblia Vida Nova, em seu comentário, assim como Lopes, mantiveram-se neutros. ↩︎
  5. Alguns autores divergem dessa patente não pelas responsabilidades assumidas ou incapacidade de Tito em executá-las, mas por defenderem a inexistência de qualquer tipo de bispado naquele tempo. Assim sendo, preferem utilizar o termo “Delegado”. ↩︎
  6. Nesta transcrição tudo o que fora registrado entre colchetes representa as notas de rodapé presentes no livro de onde retiramos o respectivo trecho. ↩︎
  7. Não confundamos isso com qualquer forma de unitarismo ou sabelionismo. ↩︎
  8. “Seja você a mudança que deseja ver no mundo” ↩︎
  9. Em caso de condenação do réu por assassinato, as testemunhas participavam da pena. Por exemplo, em caso de apedrejamento elas seriam as primeiras a atirarem as pedras. ↩︎
  10. Jerônimo e Crisóstomo diziam que tal debate fora fingido, ou seja, previamente combinado entre os apóstolos. Este disparate foi refutado por Calvino. ↩︎
  11. Os excessos eram uma característica arraigada na cultura romana a ponto dos convidados forçarem o próprio vômito para “abrir espaço” aos demais pratos e bebidas servidos. Havia não apenas escravos dedicados ao ato como, algumas vezes, vomitórios abertos aos convidados. Quem conhece a saga Jogos Vorazes –  Chamas (Segunda parte da história criada por Suzanne Collins) teve um vislumbre disso quando os personagens Katniss e Peeta veem a suntuosidade da festa na casa do presidente Snow. ↩︎
  12. E pensar que Lutero chegou a considerar essa missiva como uma mera “carta de palha”. ↩︎
  13. Inicialmente, este é um termo forjado apenas no século XIX após a Revolução Francesa e usado pela primeira vez com Napoleão Bonaparte. Só por isso, precisamos ter cuidado para não cairmos em anacronismos. ↩︎
  14. Criados no período mais duro da ditadura, sob o governo Médici onde a ideia era expulsar do Brasil todos os inimigos do governo por meio do exílio ou morte. Uma minoria fora agraciada com a primeira opção, mas a maioria tombou perante a máquina repressora, principalmente pela dobradinha DOI (Destacamento de Operações e Informações) e DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) ↩︎
  15. Onde o Estado não possui limite de autoridade e a privacidade deixa de existir. Há uma centralização de poder seja em um individuo ou em um grupo. ↩︎
  16. Usando o antissemitismo de Lutero e deturpações de textos de Nietzche. Ao contrário do que muitos propagam, não vemos Nietzche odiando os Judeus e sua obra “Para Além do Bem e do Mal”, serve para defesa desse ponto de vista. Há quem defenda que sua irmã, Elizabeth, uma apoiadora ferrenha de Hitler, tenha adulterado vários de seus escritos (por supressão e/ou alteração) visto que era a detentora de sua propriedade literária. ↩︎
  17. É necessário esclarecermos alguns pontos
    a) Há apenas um pecado imperdoável, a blasfêmia contra o Espírito Santo (Mc 3:20-30), contudo a bíblia não detalha o que seria ele e, portanto, não podemos traçar qualquer métrica qualitativa como o que ocorre na lista dos 7 pecados capitais.
    b) Outra questão é sobre hierarquia demoníaca pois Mt 17:21 mostra-nos que ela existe mas, novamente, não encontramos em toda a bíblia maior detalhamento. Encontramos aqueles que divulgam não apenas as patentes demoníacas (demônios regionais, demônios de alta ou baixa grandeza…) como diversos nomes (preto velho, pomba gira, tranca rua…) e isso não passa de um verdadeiro sincretismo religioso. ↩︎
  18. Novamente Meister nos esclarece esses significados:
    Mandados (mishmeret): […] obrigação, principalmente quanto a rituais e festas que deveriam ser guardadas pelo povo […].
    Preceitos (mitsva): Refletem ordens ou instruções diretas de Deus para sua Criação […].
    Estatutos (huq): Referem-se mais diretamente à lei escrita, gravada (normalmente em pedra) […].
    Lei (torah): Normalmente refere-se ao ensino ou instrução. A Torah significa mais do que o simplesmente uma afirmação ou ordem de Deus sobre um determinado assunto. ↩︎

Bibliografia

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  • Stott, J. W. (2014). A mensagem de Gálatas: Somente um Caminho (6 ed.). (J. A. Motyer, J. R. Stott, Eds., & Y. M. Krievin, Trad.) São Paulo: ABU. Acesso em 07 de 09 de 20177
  • Strong, A. H. (2003). Teologia Sistemática (1ª ed., Vol. 1). (L. H. Silva, R. d. Campos, S. M. Lima, S. Cappelleti, Eds., & A. Victorino, Trad.) São Paulo – SP: Hagnos.
  • Vaticano. (s.d.). https://www.vatican.va. Acesso em 28 de 11 de 2025, disponível em vatican: https://www.vatican.va
  • Lutero, M. (2017). Obras Selecionadas de Martinho Lutero (Vols. 10: Interpretação do Novo Testamento – Tito e Gálatas). (D. Drehmer, Ed., L. H. Dreher, & P. F. Flor, Trads.) Sinodal. Acesso em 22 de 12 de 2025
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